MONGÓLIA INTERIOR, CHINA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Imagine a distância entre as regiões centrais de Curitiba e São Paulo coberta por parques de painéis solares e áreas de proteção ambiental que podem chegar a quilômetros de largura. É disso que se trata o faraônico projeto da China de energia fotovoltaica e combate à desertificação.
O país escolheu o deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, para construir sua Grande Muralha Solar, que, quando finalizada, contará com cerca de 400 km de extensão e 5 km de largura. Embora distante da dimensão da verdadeira muralha, que chegou a 21 mil km, o projeto se tornará a maior instalação do mundo de painéis solares em região desértica.
O objetivo, segundo as autoridades chinesas, é ter mais uma alternativa de abastecimento energético de metrópoles próximas. Quando finalizada, a muralha terá a capacidade instalada de 60 gigawatts de energia, mais do dobro do potencial em todo o estado de São Paulo, de 25,5 gigawatts, por exemplo.
A área dedicada contará com parques solares já existentes, novas construções e outras que ainda estão em fase de planejamento. Os painéis ficarão distribuídos em diferentes usinas e não estarão presentes em áreas de contenção do avanço das dunas.
“Através do desenvolvimento integrado do controle da areia e fotovoltaico, alcançamos o ganha-ganha de aumentar o verde e a energia”, diz Wang Zhaosheng, diretor do Departamento de Silvicultura e Pastagens da Mongólia Interior.
No início, o projeto tinha o objetivo de alcançar uma capacidade instalada de energia de cerca de 100 gigawatts, quase a metade do potencial de todo o território brasileiro.
Depois, a ambição foi reduzida em 40%, segundo Li Kai, diretor do Centro de Segurança Energética do Escritório de Energia de Dalad, região onde ficam algumas das principais usinas da muralha. O regime não divulgou o que levou à diminuição. A muralha tem hoje cerca de 27,3 gigawatts instalados.
O deserto foi escolhido como localização estratégica pela grande disponibilidade de energia solar e de espaço para os painéis, o que permite a instalação em escalas que seriam impossíveis em grandes centros, para onde a energia é enviada. Estar próximo às regiões beneficiadas também reduz o custo no transporte por meio de fios de alta tensão, gargalo comum em projetos de energia limpa.
A muralha visa garantir abastecimento principalmente durante os momentos de pico, que são observados durante o verão e, no dia a dia, no início da manhã e em parte da noite, quando a população está em casa.
Para isso, será mais uma fonte entre as já utilizadas, como a energia gerada pelo carvão e pelas turbinas eólicas.
Segundo Gang He, professor de política energética e climática da Faculdade Baruch (EUA), os governos medem a sua segurança energética por meio do desempenho nos momentos mais críticos, quando o consumo dispara por temperaturas extremas ou atividade industrial, por exemplo.
“A Grande Muralha Solar pode ajudar a aliviar a pressão durante os períodos de pico”, afirma ele, que também é docente de relações internacionais na Universidade da Cidade de Nova York. “Assim, pode atender parte dessa demanda e reduzir a quantidade de geração convencional necessária.”
He afirma que o consumo de energia na China também cresceu nos últimos anos em razão da eletrificação de diversos setores, como o automotivo, e do crescimento no número de data centers, por exemplo.
Outro objetivo do projeto é domar a areia do deserto, que, além de representar risco direto às cidades fronteiriças, também ameaça Pequim, o centro político do país e um dos principais beneficiários da carga gerada pela muralha.
Autoridades chinesas afirmam que a cobertura vegetal na região subiu de 5% para cerca de 30%, e um estudo publicado pelo Journal of Environmental Management, que avaliou a instalação de painéis em diferentes desertos pela China, confirma que a iniciativa promove aumento da vegetação.
Para atingir os objetivos, a Administração Nacional de Florestas e Pastagens criou uma escala tridimensional para os parques fotovoltaicos em desertos chineses. Sobre as placas, haverá a geração de energia; embaixo delas, ocorrerá a recuperação do solo, e entre os painéis deve ser feito o cultivo de vegetação nativa e, em alguns casos, adequação do espaço para pastagem de animais.
O comando local diz que a geração de energia limpa na região reduziu a emissão de 1,6 milhão de toneladas de dióxido de carbono anualmente. Em 2024, a China emitiu 12,3 bilhões de toneladas, de acordo com o projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford.
Mesmo carregando o título de principal emissor de dióxido de carbono no mundo, a China está longe de se mostrar envergonhada por ter o carvão como parte de sua estratégia de desenvolvimento e item considerado indispensável para viabilizar a transição verde.
A Mongólia Interior é hoje a principal vitrine do desenvolvimento verde no país, com alguns dos principais projetos fotovoltaicos, eólicos, de hidrogênio verde e de armazenamento de energia renovável. Mas é também o maior produtor de carvão no país, com novo recorde histórico em 2024.
Segundo Huang Zhiqiang, vice-presidente executivo da Mongólia Interior, o carvão é hoje indispensável. A região, por produzir mais de um quarto do total nacional e exportar 60% do extraído, “carrega a grande responsabilidade de garantir a segurança energética nacional”. O combustível estaria deixando de ser a fonte primária, afirma, e se tornando um suporte para a disponibilidade instável das energias renováveis.
“A fotovoltaica, que chamamos de intermitente, gera eletricidade quando há sol e não gera quando não há; ao meio-dia gera muito, à noite não gera. Quanto ao vento, temos a estação de ventos fortes e a estação de ventos fracos”, diz.
“Por isso, por um lado impulsionamos a construção de armazenamento, mas, fundamentalmente, ainda não podemos prescindir do suporte da energia termelétrica a carvão.”

