BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – A quase um ano das eleições presidenciais e com cerca de 60% de reprovação, Javier Milei achou uma causa com apelo para praticamente todos os argentinos: a questão das Ilhas Malvinas, um território a menos de 500 km do país sul-americano em disputa com o Reino Unido desde o século 19.
A questão foi revivida no começo da semana passada, quando o presidente americano, Donald Trump, disse não descartar uma revisão da neutralidade que Washington adota em relação à soberania do arquipélago – ao mesmo tempo agradando o aliado argentino e desafiando o desafeto britânico, o premiê trabalhista Andy Burnham.
Milei precisou de apenas três dias para organizar um pronunciamento em rede nacional sobre o assunto. Cercado por seu gabinete, o ultraliberal afirmou que as Malvinas são argentinas “por história e por direito”, que o território está ocupado pelos britânicos por uma “situação colonial que se perpetua até os nossos dias” e que o governo tomaria medidas práticas.
Uma delas avançou nesta terça-feira (8), quando a Casa Rosada disse ter iniciado os procedimentos para impor sanções a 15 empresas e empresários que teriam violado a soberania argentina. O grupo se une a outras 45 pessoas e companhias que já estavam no alvo do governo desde a semana passada.
Na véspera, a gestão já havia anunciado denúncias penais contra cinco petrolíferas que atuam no arquipélago. O argumento é que elas atuariam sob licenças do “governo ilegítimo do Reino Unido” e sem a autorização da Argentina, o que violaria a legislação da nação sul-americana.
O tema é especialmente delicado para Milei – e por isso pode ser uma oportunidade diante do polarizado cenário político. Alguns argentinos nunca o perdoaram por ter dito que Margaret Thatcher foi uma das “grandes líderes” da história da humanidade durante um debate de 2023, antes de ser eleito.
A política morta em 2013 estava no poder em 1982, quando Buenos Aires tentou recuperar o território e saiu humilhada do conflito, que matou 649 argentinos e 255 britânicos. “Participamos de uma guerra que perdemos e devemos fazer todos os esforços para recuperar as ilhas por meios diplomáticos”, disse o ultraliberal na ocasião.
Uma vez no poder, ele tentou se aproximar do Reino Unido por meio de encontros com autoridades britânicas nos quais a questão das ilhas era um dos pontos abordados, segundo o governo – uma estratégia controversa na Argentina.
Em abril do ano passado, no dia em que se recordava os mortos da guerra, Milei foi além e disse que a ideia era fazer com que “todos os cidadãos do mundo busquem o sonho argentino”, em uma espécie de reconhecimento do argumento de que a maioria dos habitantes da ilha quer permanecer sob soberania britânica.
“Buscamos ser uma potência, a ponto de eles preferirem ser argentinos, para que não precisemos usar dissuasão ou persuasão para alcançar esse objetivo”, disse o ultraliberal.
Mais recentemente, Milei adicionou outra controvérsia ao mesmo tema. No dia 24 de agosto, um navio petroleiro com bandeira britânica atracou no porto de Ushuaia, sob administração da Agência Nacional de Portos e Navegação -não mais um órgão da província- desde janeiro deste ano.
A presença do navio no local, ainda que apenas por algumas horas, desencadeou um conflito político com o governo da Terra do Fogo, onde fica a cidade. “Isso nunca havia acontecido antes”, afirmou à Folha de S.Paulo Andrés Dachary, secretário para as Malvinas, Antártica, Ilhas do Atlântico Sul e Assuntos Internacionais na província.
Na época, o governo reagiu dizendo que o petroleiro não representava nenhum risco para a soberania argentina e que nenhuma lei havia sido violada, algo com que Dachary até concorda.
“A questão é que muitas coisas fazem parte do senso comum”, disse. “Mas o governo Milei carece de senso comum, e é por isso que, infelizmente, temos que avançar com marcos regulatórios, porque as ações políticas que estão sendo realizadas na Argentina hoje eram impensáveis em outros tempos.”
O secretário afirmou, por meio de sua conta no X, que é difícil acreditar no atual discurso de Milei em relação às Malvinas. “Há pouco mais de um ano, as mais altas autoridades do governo se reuniam no Teatro Colón para celebrar a ‘amizade perpétua’ com o Reino Unido”, escreveu.
Os impactos que a nova postura pode ter para a imagem do ultraliberal ainda são incertos. A mais recente pesquisa de opinião da AtlasIntel, realizada para a Bloomberg News em agosto, mostra que sua desaprovação caiu quatro pontos em relação ao mês anterior, mas ainda estava em 58%.
O aceno de Trump, no entanto, mostra mais uma vez que ele foi recompensado pela sua diplomacia praticamente limitada a EUA e Israel.
Nesta terça-feira, aliás, em meio a sanções do Reino Unido a Israel em razão de assentamentos na Cisjordânia, o ministro de Segurança Nacional israelense, o extremista Itamar Ben Gvir, pediu pelo X que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu reconhecesse que as Malvinas são um “território argentino ocupado” que os britânicos “roubaram violentamente”.

