BUENOS AIRES, ARGENTINA E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em uma decisão inédita na história das relações bilaterais de Brasil e Argentina, o Itamaraty informou nesta terça-feira (4) ao embaixador do país vizinho, Guillermo Daniel Raimondi, que ele pode voltar para Buenos Aires, já que agora o governo fará tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília.
A medida, que inclui também a permanência no Brasil de Julio Bitelli, embaixador brasileiro na Argentina, é uma resposta aos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos últimos dias. Esse estado de coisas será mantido enquanto durem as ofensas do ultraliberal, dizem membros do governo.
Segundo a reportagem apurou, Raimondi foi convocado ao Itamaraty, onde recebeu a informação de que poderia voltar para casa. Não se trata de uma expulsão do embaixador -a medida estaria um grau abaixo dessa ação diplomática. Isto é, ele não será considerado persona non grata, tampouco será consultado para a relação dos dois países a partir de agora. Raimondi não tem prazo para sair do país.
A informação inicial de que Bitelli, em Brasília desde 26 de julho, não voltaria a Buenos Aires foi dada pelo jornal argentino Clarín e confirmada à reportagem. O governo decidiu manter apenas um encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.
Trata-se da mais grave crise em décadas com a Argentina, um dos principais parceiros comerciais e aliado histórico do Brasil.
Segundo funcionários do governo informaram à reportagem, a ação do governo brasileiro em relação ao embaixador argentino tem grau semelhante à decisão de Washington de revogar o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. Ela não foi expulsa e pode permanecer no país, embora não possa mais desempenhar suas funções normalmente.
Horas após a medida vir a público, a chancelaria argentina afirmou em um comunicado que “lamenta a decisão [do Brasil] de continuar se isolando do resto da região por questões puramente ideológicas”. “Nunca respondemos a uma diferença política com uma medida institucional. Esse critério é o que a Argentina sustenta hoje”, afirmou a pasta.
O conflito com a Argentina começou há pouco mais de uma semana, quando Milei atacou autoridades brasileiras durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), em São Paulo.
Em um discurso inflamado, o presidente argentino se referiu a Lula como ladrão e presidiário, e chamou de “lixo careca” o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, que vetou uma visita do ultraliberal a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar em Brasília.
No dia seguinte, o Brasil reagiu chamando Raimondi para prestar esclarecimentos e convocando Bitelli de volta a Brasília. A crise continuou nos dias seguintes, com o ministro Dario Durigan (Fazenda) chamando Milei de “palhaço”, e o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) classificando o argentino como “caricatura patética” e puxa-saco de Donald Trump.
Lula, por sua vez, escolheu ironizar o homólogo. “Quem é esse cara?”, perguntou a jornalistas também na semapa passada, ao ser questionado sobre a declaração de Milei.
Membros do governo argentino vinham tentando minimizar a situação ao longo da semana. “Do nosso lado, não há nenhuma chance de romper relações. Não estamos levando isso para o nível institucional”, afirmou o chanceler argentino, Pablo Quirno, a uma rádio na quarta passada (29) ao ser questionado sobre as declarações do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que havia classificado o episódio como lamentável na véspera.
No domingo (2), porém, Milei renovou os ataques em uma entrevista à LN+, emissora do jornal La Nación. “O que é agressivo é quando alguém rouba. É muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, afirmou, ao ser questionado sobre o episódio. “Falam de interferência política na região. Se há alguém que interfere politicamente na região é Lula, contaminando-a por completo com as ideias imundas do socialismo.”
E continuou: “O pior é que me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, Lula se sente atacado? Ele é um vigarista e um ladrão. É um condenado. Saiu por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e não ataquei os brasileiros; falei em favor dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes, que negou a visita a Bolsonaro”.

