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Balneário Camboriú

“Quem tem medo dele?” por Enéas Athanázio

Memória & Histórias 30 anos JP3

(Equipe de funcionários e colaboradores)

Durante esses 30 anos de jornalismo do Página3, passaram pela redação dezenas de funcionários e colaboradores, esse relato é de um deles.

Logo que cheguei a Balneário Camboriú aconteceu um encontro de escritores promovido pelo Colégio Margirus. Vieram colegas de ofício de Florianópolis, Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul e Itajaí, entre eles o crítico Celestino Sachet, o romancista Adolfo Boos Jr. e o poeta Lindolf Bell. Iniciando o evento, – não sei o motivo, – fui escolhido para falar em nome da cidade, saudando os visitantes. No final, depois de tudo encerrado, fui entrevistado por uma jornalista ativa e hábil. Tratava-se de uma galega com ar esportivo e cabelos esvoaçantes, segura nas perguntas e ligeira de raciocínio.

Dias depois, fui visitado por uma senhora argentina, muito simpática, que angariava assinaturas para o jornal “Página 3.” Ela me confidenciou então que a galega em questão era nada mais nada menos que a dona do jornal – Marlise. A informação acendeu uma luzinha na minha cabeça: Quem sabe ela aceitaria alguma colaboração minha? Pelo sim pelo não, armei a cara, apanhei alguns originais de contos, crônicas e artigos e fui à redação. Na pior das hipóteses levaria um carão. Mas isso não aconteceu, ela me recebeu muito bem e meus trabalhos começaram a aparecer nas páginas do jornal.

Numa das visitas à redação, no entanto, algo de novo aconteceu. Sentado num canto, diante de um computador, avistei alguém que eu desconhecia. Barbudo e cabeludo, ele me pareceu hirsuto, cerdoso, peludo, com as faces e a cabeça aureoladas por bastos fios que indicavam ser renitentes à brilhantina, ao gumex e à glostora (*), quiçá impenetráveis até mesmo ao pente e à escova. Por associação, veio-me à memória o panorama da caatinga nordestina com seus mandacarus, xique-xiques, palmas e juás espinhentos. Eu o observei, ressabiado e de longe, enquanto dois olhos muito vivos me fuzilavam através daquela floresta capilosa e densa.

Não tive coragem de perguntar de quem se tratava.

Voltando para casa, caminhando em silêncio pela urbe, fui trocando ideias com meus inocentes botões. Seria o enigmático personagem um sujeito casmurro, mal-humorado, ou lá estaria para afugentar os chatos que costumam perturbar a boa paz das redações? Ruminei, ruminei, aventei outras tantas hipóteses. Poderia ser adepto das amarguras do tipo jiló, berinjela crua ou chá de aloés. . . Apreciador de pratos apimentados, ardidos ou azedos, talvez. Tudo parecia possível, mas não cheguei a conclusão alguma.

Nas visitas seguintes, mais ressabiado ainda, já entrei olhando para o canto onde se entrincheirava o barbaças. Para minha surpresa, no entanto, ele se apresentou como o outro dono do jornal e conversamos bastante; Não tardou muito para que me convidassem a assinar uma coluna, coisa que estou fazendo há anos. Do meio daquela chusma inóspita de pelos rebeldes saía uma voz ainda jovem que revelava uma pessoa bem informada e boa de papo. Nem preciso dizer que se tratava de Waldemar, esse jornalista valente e combativo que todos conhecem e cujo nome mais e mais se alastra. Desde então ele já vinha colocando o dedo na moleira para desconforto de alguns e satisfação de muitos.

No correr de mais de duas décadas, a pelagem se tornou algo grisalha, as cãs branquearam as costeletas, os cabelos hirsutos rarearam, ainda que prossigam na velha e indomável rebeldia. Tornamo-nos amigos, embora sem a convivência que seria desejável, e aprendi a respeitá-lo como o profissional que é. No entanto, mesmo que eu não seja dos melhores inimigos, não gostaria, de forma alguma, de tê-lo entre meus desafetos!

  • (*) Antigos produtos para assentar cabelos rebeldes.
Anunciada a estréia do novo colunista em março de 1997 (foto Arquivo JP3)
(foto Divulgação/Jornal O Boêmio)

Nota do Autor: Marlise e Waldemar Cezar, jornalistas, são os proprietários do “Página 3”, o mais lido e influente jornal do Litoral Norte catarinense.

Nota da Redação: Enéas Athanázio é escritor, tem 59 livros publicados e assina coluna no Página3 desde 8 de março de 1997, edição 295 deste jornal.

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