Criado em 2001, o Fórum Nacional de Dança (FND) se tornou uma das principais articulações coletivas da dança no Brasil, reunindo representantes de todo o país na construção de políticas públicas e no fortalecimento profissional da categoria.
A 17ª edição aconteceu entre os dias 20 e 23 de maio, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), com destaque para os próximos passos da regulamentação da Lei da Dança após sua recente sanção presidencial, em abril deste ano.
Santa Catarina presente
Profissionais da dança de Santa Catarina representando diferentes frentes da dança, participaram do Fórum:
Samuel Carvalho (Sam Carvalho), arte-educador e produtor cultural de Balneário Camboriú com atuação nas danças urbanas, educação pública e políticas culturais;
Maxwell Sandeer Flôr, de Criciúma, atual Conselheiro Estadual de Cultura de Santa Catarina representando a dança, produtor cultural, educador e uma das principais referências na articulação de políticas públicas culturais do estado;
Lígia Martins, de Blumenau, atual presidente da APRODANÇA — Associação dos Profissionais da Dança de Santa Catarina — professora da FURB e pesquisadora da área da dança;
Marina Coura, de Florianópolis, diretora da Garagem da Dança, idealizadora do Floripa Tap e representante do Setorial de Dança no Conselho Municipal de Política Cultural da capital catarinense.
Destaques

Entre os destaques do Fórum, a presença de Dulce Aquino (Dulce Tamara da Rocha Lamego da Silva), uma das figuras mais marcantes da história recente da Escola de Dança da UFBA, tendo atuado como sua diretora entre 2014 e 2018 e como Pró-Reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da universidade.
Ela possui uma longa trajetória voltada para o avanço das políticas públicas, da educação e do reconhecimento da dança como campo científico e de cidadania no Brasil.
Atualmente, embora aposentada das salas de aula convencionais da UFBA, ela continua ativa no cenário político-cultural e em associações de pesquisa como a ANDA (Associação Nacional de Pesquisadores em Dança).
Regulamentação da profissão

Durante o Fórum, um dos principais temas discutidos foi a regulamentação da profissão da dança após a recente sanção da Lei da Dança pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os debates envolveram estratégias ligadas à valorização profissional, proteção trabalhista, fortalecimento das associações estaduais e construção coletiva das próximas diretrizes da regulamentação nacional da dança.
Danças urbanas&Vivências
O arte-educador e produtor cultural Samuel Carvalho destacou a importância da participação das danças urbanas e das periferias dentro dessas construções nacionais.

“Foi muito importante levar para o Fórum as vivências da educação pública, dos projetos sociais e das danças urbanas de Santa Catarina. Muitas vezes, as periferias e os artistas locais acabam não sendo incluídos nos grandes debates culturais, então ocupar esses espaços também é uma forma de garantir representatividade e construção coletiva”, afirmou.
Samuel Carvalho, transmasculino atípico, atua há mais de 16 anos com dança, educação e cultura urbana em Santa Catarina. Atualmente é oficineiro da Secretaria de Assistência Social, Mulher e Família de Balneário Camboriú e já atuou na Fundação Cultural de Camboriú. Também foi Conselheiro Municipal de Cultura de Balneário Camboriú (2024–2025), representando a setorial de dança, além de delegado nacional representando o estado de Santa Catarina na Conferência Nacional de Cultura e na Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIAPN+.
Recentemente, também passou a integrar a comissão organizadora responsável pela construção de estratégias relacionadas à regulamentação profissional da dança no Brasil dentro das articulações do Fórum Nacional de Dança.
Desafios dos profissionais de dança

Outro ponto debatido durante o encontro foi a dificuldade de empregabilidade dos profissionais da dança em Santa Catarina. Segundo os participantes, muitos eventos culturais realizados no estado acabam contratando artistas de fora sem diálogo com as setoriais locais, reduzindo oportunidades para bailarinos, dançarinos, coreógrafos e arte-educadores catarinenses.
Durante os debates e também nas redes sociais, surgiram reflexões sobre os grandes festivais competitivos realizados em Santa Catarina, incluindo o Festival de Dança de Joinville, reconhecido internacionalmente e considerado um dos maiores festivais de dança da América Latina.
Os participantes destacaram que, apesar da relevância histórica e artística desses eventos, muitos deles possuem foco voltado ao público amador e competitivo, onde grupos e bailarinos frequentemente pagam inscrições, hospedagens, figurinos e demais custos para participar, sem que exista remuneração profissional para os artistas envolvidos.
A discussão levantada durante o Fórum relaciona diretamente esse cenário com a dificuldade de geração de trabalho e renda para profissionais da dança no estado. Enquanto grandes eventos movimentam a economia cultural, muitos artistas catarinenses seguem sem acesso real à contratação profissional, utilizando esses festivais principalmente como experiência artística, intercâmbio e fortalecimento de currículo.
“Muitos produtores e contratantes de outros estados, quando vêm realizar eventos culturais na nossa região, não procuram dialogar com as setoriais de dança locais para a contratação direta de profissionais daqui. Isso faz com que muitos artistas acabem invisibilizados dentro do próprio território”, destacou Samuel.
Foco na Aprodança
Sam Carvalho disse que os profissionais catarinenses retornaram com o foco de fortalecer a Associação dos Profissionais da Dança de Santa Catarina (APRODANÇA).
“Para que a entidade volte a se conectar com todas as setoriais de dança do estado, fortalecendo a articulação profissional da categoria e ampliando os debates sobre representatividade, políticas públicas e valorização dos trabalhadores da dança. Entre as propostas discutidas também estão a possibilidade de construção de um Sindicato da Dança de Santa Catarina ou o fortalecimento de uma diretoria ativa da dança dentro do já existente SATED-SC”, completou Sam
Políticos presentes
O Fórum também contou com a participação de parlamentares e representantes institucionais ligados diretamente ao debate da regulamentação da Lei da Dança, entre eles a deputada federal Alice Portugal (PCdoB/BA), o deputado federal Carlos Zarattini (PT/SP), a deputada federal Lídice da Mata (PSB/BA) e o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL/RJ), além de representantes da FUNARTE, Ministério da Cultura, Centro Cultural São Paulo e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
“Para nós, representantes catarinenses, a participação no encontro reforça a importância da organização coletiva da categoria e da presença ativa de Santa Catarina nos debates nacionais sobre o futuro da dança brasileira, principalmente no fortalecimento das culturas urbanas, das periferias e da valorização profissional dos trabalhadores da dança”, concluiu Sam Carvalho.

