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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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O GIGANTE DE CARDIFF

A curiosa história do Gigante de Cardiff pode nos parecer hoje, bastante burlesca e inverosímil, mas ela de fato ocorreu e foi um misto de ingenuidade coletiva e fraude bem armada. Tudo aconteceu em 1869, quando um grupo de trabalhadores escavou um poço próximo a um celeiro na cidade de Cardiff (New York, EUA). Ao invés de água, eles encontraram um misterioso objeto: um homem supostamente petrificado, com três metros de altura! A notícia logo se espalhou e o proprietário do terreno, Sr. William C. Newell, resolveu montar uma tenda sobre o gigante de pedra e, desta forma, começou a cobrar ingressos dos curiosos que desejavam ver a misteriosa peça.

Aos poucos, a verdadeira história do gigante veio à tona. Tudo começou com uma discussão religiosa entre um empresário de tabacaria, Sr. George Hull, e um reverendo local sobre a existência de gigantes no passado, como a Bíblia descrevia em alguns trechos. Hull era ateu, e acreditava que os textos sagrados não podiam ser entendidos literalmente; mas como só ele pensava assim entre os religiosos, acabou perdendo o embate teórico. Inconformado com a credulidade cega das pessoas, resolveu pregar uma peça em todos da cidade, para provar como o homem pode ser facilmente enganado por argumentos falsos. Hull contratou um escultor em Chicago – Edward Burghardt – e lhe enviou um bloco de gesso para a criação de uma estátua. A ideia era criar um suposto gigante bíblico. Para tornar a farsa mais convincente, Hull esfregou a peça com água, areia e ácido sulfúrico, criando um aspecto de envelhecimento no gesso.

Em novembro de 1868, levou secretamente a peça de trem até a fazendo de seu primo, o Sr. Newell, e a enterraram atrás do celeiro. Somente no ano seguinte é que mandaram os trabalhadores escavarem o local, aguardando a inevitável “descoberta”. O local não foi escolhido ao acaso, pois a fazenda de Newell já havia sediado o 2º Grande Despertar, um encontro de religiosos; além do que lá era comum achar fósseis de peixes petrificados.

Em poucos dias, a pacata cidade de Cardiff experimentou uma avalanche de centenas de pessoas por dia para conhecerem a “descoberta arqueológica bíblica” de um gigante petrificado. Os hotéis ficaram lotados e o comércio realizou grandes lucros com a venda de produtos. Logo, jornais como o New York Tribune passaram a noticiar e debater o achado bíblico. Cientistas como John F. Boynton (geólogo), Yalle Othniel C. Marsh (paleontólogo) e Andrew D. White (Universidade de Cornell) opinaram pela ilegitimidade da peça, alguns declarando não passar de uma fraude grosseira. Mesmo assim, vários teólogos defendiam junto ao fiéis, sua legitimidade e a confirmavam através dos textos sagrados.

Após realizar um enorme lucro com venda de ingressos, George Hull vendeu a estátua para um sindicato de New York, que a expôs com lucros astronômicos. Naquele momento, o Gigante representava um negócio altamente lucrativo; e alguns oportunistas – como o empresário circense P.T. Barnum – esculpiram peças semelhantes para seu próprio lucro. Na entrada de sua tenda, Barnum expunha um letreiro: “Será uma estátua? Uma Petrificação? Uma estupenda fraude ou os resquícios de uma Civilização Perdida?”.

Não demorou para que outros “gigantes verdadeiros” surgissem por todo EUA, e uma briga judicial correu para provar qual gigante era, de fato, o original. Pouco mais de um ano após sua descoberta – por volta de 1870 – o Gigante de Cardiff já não era uma polêmica, causando risos nervosos diante da farsa tosca que enganou milhares de pessoas. O próprio George Hull já não escondia nada, falando abertamente no estratagema que havia criado e na fortuna que havia ganho com a credulidade religiosa alheia. Por fim, uma entrevista completa foi publicada no mesmo ano com as pessoas que o esculpiram em Chicago. 

O caso do Gigante de Cardiff ainda hoje é motivo de estudo. Não pela escultura, mas pela forma como a credulidade tomou conta de toda uma nação – mesmo que por um curto período – trazendo o fascínio pelo desconhecido e o embate entre religião e ciência. Após a farsa ser revelada, a estátua foi transportada para um depósito em Massachusetts; e depois disso passou a ser exposta no Farmers Museum, em Cooperstown, New York. Ela encontra-se lá até hoje.

Farsa arqueológica, histeria de massa ou ingenuidade coletiva? Como podemos classificar este curioso caso? De fato, pouco importa; mas muitos veem no Gigante de Cardiff a origem de um dos ditados mais famosos e populares dos EUA: “Todo dia, nasce um otário”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui)

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