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Balneário Camboriú

Kambô – A vacina do sapo, fantástica medicina que trata de diversos assuntos de saúde e o fortalecimento do sistema imunológico.

Nesta semana, tive a honra de receber em minha casa, uma família representante dos povos originários da Tribo Noke Kuin, também conhecido como Povo Verdadeiro, que vive no coração da Floresta Amazônica – berço da maior biodiversidade do Planeta!

O líder espiritual Mõcha Noke Kuin, sua esposa Meto e seus filhos Shere e Wesi Noke Kuin pertencem a aldeia Shonoya Samauma, localizada no município de Cruzeiro do Sul, AC, na Amazônia e fazem um lindo trabalho de divulgação e fortalecimento da cultura de seu povo, levando vivências das sagradas medicinas da floresta para todo o território. Também é através das vivências e do artesanato que levam o sustento e mantém a união de seu povo na aldeia.

(Arquivo pessoal)

Dentre as medicinas da floresta, está o Kambô, ou vacina do sapo, como é popularmente conhecida. Beneficio-me do Kambô desde 2019, sempre que me é possível e, para mim, é uma das medicinas naturais mais fortes e sagradas. Diante da curiosidade de muitos que me perguntaram sobre, venho aqui compartilhar um pouquinho desta experiência e alguns estudos com vocês.

O kambô é uma resina retirada de uma rã que vive na Amazônia. A rã verde – Phyllomedusa bicolor, apelidada de sapo Kambô, é a maior espécie do gênero da família Hylidae, encontrada no sul da Amazônia e em todo o território do Acre, podendo ser encontrado também em quase todos os países amazônicos, como as Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. Por extensão, também se chama de Kambô a resina retirada desse sapo e à sua aplicação medicinal: “Vamos tomar Kambô”.

Diz à lenda que uma vez os índios de uma aldeia ficaram muito doentes e o pajé tentou curá-los de diversas maneiras, mas nada surtia efeito. Além dele, o sábio curandeiro ancestral da aldeia utilizou todas as ervas medicinais disponíveis, mas nada livrou aquelas pessoas da agonia. Então, em um ritual de pajelança, o pajé recebeu uma mensagem para que se embrenhasse na floresta. Lá, sob os efeitos da ayahuasca, inesperadamente recebeu a visita do grande Deus, que trazia nas mãos um sapo verde, da qual tirou uma secreção esbranquiçada nas costas do animal, e ensinou como deveria ser feita a aplicação dessa secreção nos enfermos. Voltando à aldeia da tribo, e seguindo as orientações que havia recebido, o pajé pôde curar seus irmãos índios. A história pode nos parecer exótica ou mesmo fantasiosa, mas o sapo verde existe e a utilização do kambô é rotineira.

(Foto: Fabiana Vieira)

Essa resina de caráter medicinal descoberta pelo povo da floresta é usada como proposta de vacina por nativos da Amazônia, para prevenção e combate a doenças. Os índios indicam a vacina para qualquer distúrbio e desequilíbrio, pois afirmam que purifica o sangue por meio da eliminação das impurezas. É também usada sem qualquer sintoma, para reforçar a imunidade, para prevenir, curar ou afastar o “panema” – conhecido entre os índios como preguiça, baixo-astral, má sorte (na caça, na pesca, na colheita ou na conquista amorosa).

O kambô é obtido do sapo amarrando-o cuidadosamente e esfregando sua pele com um instrumento duro, recolhendo a secreção em uma espátula de madeira, sem machucar o animal, que é sempre tratado com muito respeito e o máximo de cautela para não prejudicá-lo, sendo liberado para seu habitat natural assim que a secreção é coletada. A Aplicação se dá com um pedaço de cipó em brasa, queima-se o local várias vezes, abrindo pequenos furos na epiderme (chamados de pontos). A aplicação da resina diluída em água é realizada sobre a pele e transportada rapidamente para todo o corpo pelos vasos linfáticos.

A quantidade de pontos pelos quais o veneno será introduzido depende do sexo, idade, estatura física, do número de vezes que já tenha utilizado o kambô, da complexidade do caso e da avaliação do aplicador, baseada nos seus conhecimentos.
Os homens geralmente aplicam nos braços ou no peito. Se for mulher, a aplicação dos pontos é na perna. Para os índios, a marca dos pontos na pele é motivo de orgulho e não deve ser escondida ou colocada na parte de trás do corpo.

(Arquivo pessoal)

Também é necessária uma dieta especial nos dias que antecedem a aplicação e a ingestão de no mínimo 3 litros de água, momentos antes a aplicação. Para os índios não há contraindicação e as crianças começam a receber kambô geralmente quando acaba o período de amamentação e, em algumas tribos, a partir dos três meses de idade. Os Katukinas tomam até 100 pontos em uma única aplicação e se aplicam em diferentes épocas do ano, durante toda a vida.

A ação da vacina do sapo é imediata e curta, porém muito forte. O processo dura cerca de 15/20 minutos, nesse tempo, o coração dispara, a dilatação dos vasos sanguíneos parece provocar uma circulação mais veloz do sangue, deixando o rosto vermelho, e em seguida pálido, ocorre uma forte onda de calor, que sobe pelo corpo até a cabeça. Algumas pessoas veem tudo branco, como se o mundo estivesse coberto por uma névoa difusa, ou caem no chão, sem forças. Há também relatos de sensação de correntes elétricas epidérmicas formigando pelo corpo. Muitos usuários incham, ficando com a aparência semelhante a um sapo. Então, de repente, o organismo reage ao mal-estar e põe tudo para fora.

Vômito forte e diarreia são as respostas mais comuns. Só então, aos poucos, os sentidos voltam ao normal. A pessoa se sente leve, limpa, disposta, de bem com a vida. Depois de 30 minutos da aplicação, a pessoa já está apta para suas atividades normais. Inúmero relatos descrevem que após a aplicação ocorre um estado de conscientização e clareza de pensamentos, assim como sensação de harmonia e de felicidade. Há ainda a indicação de ocorrência regular de sonhos, melhora da percepção e da intuição e fortalecimento da autoestima.

As pesquisas:

Pesquisas científicas internacionais, nas áreas química e farmacêuticas, vêm sendo realizadas sobre as propriedades da secreção de Phylomedusa bicolor desde a década de 80 ou antes.

Os primeiros a “descobrir” as propriedades da secreção para a ciência moderna foram os pesquisadores italianos. Também foram publicadas pesquisas sobre as propriedades da secreção por pesquisadores franceses e israelenses. Mais recente, a Universidade de Kentucky (EUA) pesquisou (e patenteou) uma das substâncias encontradas na secreção em colaboração com a empresa farmacêutica Zymogenetics. Diversos laboratórios internacionais já estão interessados no veneno do kambô para desenvolver um medicamento que pode levar à cura do câncer.
Esta resina contém substâncias peptídeas analgésicas (a dermorfina e a deltorfina), que eram desconhecidos antes das pesquisas de Phyllomedusa bicolor.

As substâncias da secreção do sapo também possuem propriedades antibióticas, de fortalecimento do sistema imunológico através da produção de anticorpos pelo organismo contra o veneno, provocam a destruição de microorganismos patogênicos, e ainda revelaram grande poder no tratamento do mal de Parkinson, AIDS, câncer, depressão e outras doenças. Hoje estão sendo produzidos de forma sintética pelos laboratórios farmacêuticos. Há também, devido ao seu efeito purgante, um evidente processo de desintoxicação do fígado (geralmente vomita-se bílis amarga), do intestino (através de evacuações) e do todo sistema digestivo. Os katukina usam-no também como antídoto em caso de picada de cobra, medicamento para males diversos, fortificante e purgatório.

Outros estudos, segundo o biomédico Leonardo de Azevedo, do Instituto Oswaldo Cruz, em São Paulo, o veneno contém substâncias opióides que aliviam a dor e produzem uma sensação de bem-estar. O especialista em venenos disse que outras moléculas presentes na substância – como as dermaseptinas, as dermatoxinas, as phylloseptinas e as plasticinas – têm demonstrado, em laboratório, propriedades antimicrobianas, destruindo bactérias, protozoários, fungos e lombrigas. Por isso, o veneno da kambô é citado em vários estudos que apontam seu potencial futuro no combate às superbactérias (bactérias resistentes a antibióticos).

Mas, para os índios, a principal causa de tomar Kambô é combater a ‘panema’. A panema é a tristeza, a falta de sorte, a irritação: “o baixo astral” – como alguém certa vez bem traduziu. A pessoa está com “panema” quando nada dá certo e nada está bom. A finalidade básica do kambo é “tirar a panema”. E esse, por mais difícil que seja aceitar para o pensamento ocidental, é o principal efeito do Kambô: ele estabelece um ‘choque de gestão’ espiritual na vida das pessoas, um marco de reorganização orgânica e psicológica a partir do qual a pessoa muda de atitude e altera seus padrões futuros de saúde.

A venda do veneno no Brasil, assim como qualquer publicidade sobre o assunto, foram proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sendo permitida sua aplicação apenas através dos povos originários.

Desde a metade da última década, o Kambô se espalhou pelos grandes centros do Brasil, onde tem havido um duplo interesse pelo kambô: como um “remédio da ciência” – no qual se exaltam suas propriedades bioquímicas – e como um “remédio da alma” – onde o que mais se valoriza é sua “origem indígena”. A difusão urbana do kambô tem-se dado, sobretudo, em clínicas de terapias alternativas e no ambiente das religiões ayahuasqueiras. Os aplicadores são bastante diversos entre si: índios, ex-seringueiros, terapeutas holísticos e médicos . Os nativos temem que novos praticantes possam aplicar erroneamente o Kambô ou usar as secreções da pele de outras espécies de anfíbios (“ Sapo-cururu ” Rhinella marina ), resultando em complicações de saúde ou até morte.

Há cerca de dez anos, os próprios índios amazônicos que usam a substância alertaram para os perigos do uso indevido e não autorizado, feito por xamãs inexperientes, do veneno.

“Estamos ouvindo falar muito que no sul do Brasil tem gente que usa (o veneno) sem nenhum respeito, tentando lucrar com a venda do leite da rã pela internet e aplicando-o sem nenhum preparo e sem a permissão dos povos indígenas, com risco, inclusive, de morte”, disse Joaquim Luz, um líder yamanawá do Acre, em uma entrevista à Rádio Nacional da Amazônia tempos atrás.

A secreção de P. bicolor contém várias toxinas diferentes não caracterizadas. Estudos adicionais sobre o potencial farmacológico dos anfíbios são necessários, e o risco de biopirataria deve ser monitorado. O tráfico desses animais e de suas secreções, e o possível impacto sobre a população de P. bicolor em seus habitats naturais, devem ser estudados de forma dispendiosa.

Portanto, ao decidir passar por essa vivência e experimentar a aplicação do kambô, o faça sempre com respeito e responsabilidade, através dos verdadeiros detentores desta medicina: Os índios da Amazônia.

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Luciana Andréa
Luciana Andréa - terapeuta em construção, apaixonada pela natureza, aprendiz do conhecimento e da vida.
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