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O ROMANCE DO CANGAÇO

Comentei nesta coluna o livro “Maria Bonita – Sexo, violência e mulheres no cangaço”, de autoria da jornalista paulistana Adriana Negreiros, publicado pela Editora Objetiva (Rio – 2018). Retorno a ele porque é dos melhores trabalhos que li sobre o tema cangaço e contém muito mais do que sugere o título. É impressionante a pesquisa feita pela autora e a quantidade de informações reunidas no volume, compondo verdadeiro romance sobre o assunto.

Entre os múltiplos temas abordados, a autora enfrenta as teses dominantes na época a respeito da existência ou não do criminoso nato inspiradas pelo célebre livro “L’Uomo Delinquente”, de autoria do antropólogo italiano Cesare Lombroso e de outros estudiosos que pesquisaram a questão. Ela aborda as posições dos cientistas brasileiros a respeito dessas proposições, a exemplo de Nina Rodrigues, Estácio de Lima e outros, traçando um panorama esclarecedor em especial no que respeita aos cangaceiros e suas classificações.

No que concerne às mulheres cangaceiras, a autora desfaz o mito de que foram tratadas como rainhas, merecendo toda sorte de carinhos e considerações. Ledo engano. Eram, em regra, maltratadas, vítimas de brutalidades e até mortas das formas mais cruéis, como aconteceu com Lili, mulher de Zé Baiano, um dos mais bárbaros integrantes do bando de Lampião, assassinada a pedradas e cacetadas, depois de amarrada a um tronco. Entre as “habilidades” desse cangaceiro estava a de ferrar mulheres com uma marca incandescente de marcar gado contendo as letras JB. Mais tarde ele próprio seria morto num ataque à traição engendrado por outros cangaceiros. A autora também revela o lado bárbaro do próprio Lampião. Nem sempre ele praticava as atrocidades mas assistia impassível ao que faziam seus homens. Com o tempo o Lampião Robin Hood, que tirava dos ricos para os pobres parece que vai perdendo força.

Por outro lado, reconhece a autora, as mulheres que deixavam a vida normal para ingressar no cangaço foram, sem dúvida, transgressoras e revolucionárias. Cruzar a fronteira exigia imensa coragem para vencer toda sorte de obstáculos e seguir um caminho sem volta. Uma vez estabelecidas no bando, tornavam-se uma espécie de propriedade dos “maridos” e, no caso da morte deles, passavam a outro homem ou eram mortas. Vivas e soltas, constituiriam grande risco para o grupo. Muitas delas foram raptadas à força, ainda muito jovens, às vezes meninas, e se viam compelidas à vida nômade e ao ar livre do bando.

Quanto a Maria, embora casada com um sapateiro boêmio e posudo, apaixonou-se por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e o seguiu de forma espontânea. Tudo indica que ele foi apaixonado por ela, embora isso não evitasse brigas, desentendimentos e maus tratos. Como mulher do chefe, desfrutava de certas regalias que desagradavam às outras cangaceiras. Viveu com Lampião e suportou as agruras de uma existência incerta, perigosa e violenta até morrer junto a ele na Grota do Angico, em 28 de julho de 1938, data apontada pelos historiadores como do final do cangaço. É curioso observar que em vida foi sempre tratada como Maria de Déa ou Maria do Capitão, nunca como Maria Bonita. Esta forma de tratamento só surgiu após sua morte e ela jamais tomou conhecimento dela.

Muito mais haveria a dizer sobre este livro. Estas notas, porém, bastam para despertar a atenção de eventuais interessados no assunto. A leitura vale a pena.

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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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