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Balneário Camboriú

Setembro Amarelo: conheça três histórias reais de luta e superação

Moradores de Balneário Camboriú compartilham suas experiências e alertam para a necessidade de procurar ajuda

A depressão é uma doença muito comum, como qualquer outra, e pode atingir qualquer pessoa, independente da faixa etária, condição social ou econômica. 

Segundo o último relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo – no Brasil esse número corresponde a cerca de 5% da população [aproximadamente 12 milhões de brasileiros]. 

Lidar com a doença pode ser um processo longo e difícil, mas com ajuda profissional é possível ter dias melhores. 

O Página 3 ouviu três moradores de Balneário Camboriú que conviveram com a depressão e compartilham suas histórias de luta e superação. Confira.

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“Tudo parecia estar muito bem, porém ainda tinha em mim vestígios das minhas dores e perdas”

Vivian (centro) e as filhas Catarina e Helena

(foto Arquivo pessoal)

Vivian Cavichioli, microempreendedora e especialista em micropigmentação

“A primeira crise de depressão que eu tive foi no ano de 2006, aos 24 anos. Eu estava no fim de um casamento e com uma filha de três anos, Catarina. Eu sentia cada dia que passava como se eu fosse morrer. Foi muito traumática a separação para Catarina e eu. 

Sem amigos, sem trabalho e com a autoestima no chão, eu acordava de uma noite de insônia e sentia ânsia de vômito ao colocar qualquer tipo de comida na minha boca. 

Cheguei a pesar 40 quilos na época. 

Durante o passar desse período, tive muito apoio da minha mãe, fui morar com meus pais e, um certo dia, tomei coragem de ir a uma entrevista de emprego em uma perfumaria muito conhecida, respirei fundo e coloquei um sorriso no rosto para disfarçar minha dor. Acho que me saí bem e acabei conseguindo a vaga. 

Minha mãe cuidava da Catarina para eu trabalhar, mas eu ainda sofria com a separação, insegurança… e foi assim por mais alguns anos. 

Depois de algumas idas e vindas dessa vida, em 2010 vim trabalhar com Estética em Balneário Camboriú. Aqui, eu comecei a fazer algo que eu realmente gostava, era independente e autônoma, tudo estava caminhando bem e passados cinco anos da separação, eu e meu ex-marido reatamos. 

Eu tinha o sonho ainda dentro de mim da família unida. Sentia uma falta, uma dor cada vez que via pai, mãe e filhinhos de mãos dadas passeando diante dos meus olhos. 

Dois anos depois engravidei da Helena, que alegria! E junto com uma nova vida chegando, minha mãe descobriu um tumor maligno no cérebro. 

Nessa época descobri que meu marido voltou a usar drogas, passando semanas longe de casa. Catarina com 11 anos, Helena na barriga, casamento novamente desmoronando…, era no trabalho que eu me apegava com unhas e dentes para manter todas as despesas da casa e minha mente distraída. 

Eu chorava todas as noites, sem poder cuidar da minha mãe, pois ela estava internada na parte de oncologia de um hospital, e como eu estava grávida, isso poderia afetar o bebê. 

Ela faleceu antes mesmo da Helena nascer, deixando um vazio enorme em mim e na Catarina. 

Eu tinha que saber lidar com tudo e todos, mesmo sofrendo e  novamente com a depressão invadindo minha vida. 

O segredo era me ocupar, fazer o que gostava e  buscar forças de onde eu não tinha. 

Me separei novamente e definitivamente em 2015. Sem mágoas, mantendo uma relação amigável pelas meninas que precisam de harmonia entre os pais, para não serem ainda mais afetadas. 

Em 2016, o trabalho foi seguindo muito bem, sonhos se tornando realidade, começo a namorar (hoje estou  noiva) e tudo parecia estar muito bem, porém ainda tinha em mim vestígios das minhas dores e perdas, e pela terceira vez entrei em crise de pânico. 

Não sentia vontade de trabalhar, de socializar, apenas cumpria com os horários agendados com minhas clientes e as tarefas de uma mãe de família. 

E como se nada bastasse, minha sócia e eu estávamos nos desentendendo e junto com a pandemia rompemos nossa parceria e eu abri mão novamente de um sonho conquistado. Alguns meses depois, minha filha Catarina é encontrada no meio da BR-101 na tentativa de suicídio. Um casal que passava de carro no momento a socorreu e a tirou dali. 

Eu nunca pensei que isso fosse acontecer conosco. 

Meu chão estava se abrindo e, cada vez mais, eu tinha vontade de sumir. 

O auto julgamento e depreciação foram aumentando. Mais alguns meses passaram, local novo de trabalho e eu tentando ficar atenta a cada movimento, até que em agosto deste ano o meu pai faleceu, e eu percebi que não conseguiria mais seguir sem pedir ajuda. 

Foi quando procurei a Mozara, a primeira dama de Balneário, e em instantes eu estava me comunicando com o Abraço a Vida. 

Catarina e eu fomos encaminhadas para psicólogas e médica voluntária que nos passou medicamentos para ajudar na ansiedade e depressão. 

Hoje estamos em tratamento e terapias e eu optei também por fazer trabalho voluntário na Casa da Mulher. 

O meu recado para você que pensa em desistir é: você não está sozinho(a), peça ajuda, olhe para você, para quem está ao seu lado precisando da sua força. Procure fazer ou trabalhar com algo que você se identifique. A depressão não escolhe classe social ou raça, muitos que você vê sorrindo podem estar desmoronando por dentro. Foi assim comigo. No meio de conquistas e alegrias, existia um vazio aqui dentro chamado depressão. Mas você pode escolher não deixar ela te dominar, você pode fazer como eu e minha filha Catarina, escolha ABRAÇAR A VIDA!”. 


Aprendi que com um limão se faz uma limonada, de um problema se faz solução, de uma crise se faz a mudança” 

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Kiko é empresário do ramo do entretenimento

(foto Arquivo pessoal)

Kiko Beck, 44 anos, empresário do ramo do entretenimento, é proprietário do Galpão Music, que fica no Savana Garden

“Sou empresário do entretenimento e DJ, mas acabei dando uma ‘segurada’ na minha carreira e investi como proprietário de um clube. 

Estava tudo indo muito bem até que chegou a pandemia. Achávamos que passaria rápido, no máximo em três meses. Eu havia acabado de fazer um investimento para finalizar a obra de um clube em Navegantes [o Malta], mas a pandemia surpreendeu muito. 

Tive uma perda financeira muito grande para não deixar os funcionários sem salário, também tinha um estoque muito grande, etc. 

Em seis meses de pandemia, estávamos abrindo para cerca de até 100 pessoas [na época, a vice Daniela Reinehr estava como governadora], mas quando o Moisés voltou, tudo fechou novamente. 

Acredito que vamos levar de cinco a seis anos de trabalho para reparar esse dano. 

Foi aí que a luz que eu via no fim do túnel, de que iríamos sair dessa, começou a se apagar. 

Percebi que estávamos ‘à mercê’ da política estadual. 

Tenho vários amigos no ramo do entretenimento no Brasil e em outros países que cometeram suicídio, outros que venderam tudo, um está vendendo pastel na rua. 

Muitos de outros países me falavam de como estava lá, isso em janeiro deste ano, e eu percebi o quanto o quadro do Brasil estava diferente. 

Meu pai morava em Miami, e faleceu em fevereiro. 

Eu passei a ver o quanto aqui as pessoas não estavam nem aí, eu e outros empresários da minha área tentamos falar com o governo do Estado, mas não conseguimos. 

Já o prefeito de Balneário, Fabrício Oliveira, em momento nenhum se eximiu das responsabilidades que tem como gestor. 

Sabíamos que não era culpa dele, ele tentou segurar aberto o máximo que conseguiu. 

Sou casado, tenho filho pequeno, e me sentia, como empresário da noite, um bandido. 

Enquanto em Balneário tínhamos um bom contato com a Fiscalização, em Navegantes o cenário era o oposto. 

Gastei um rio de dinheiro para finalizar o Malta lá, que estava funcionando com todas as normativas, assim como em Balneário. 

Tive que fechar meu clube em Navegantes por conta de problemas com a Polícia Militar e políticos da cidade. 

Eu não entendi o que aconteceu, falaram de crime organizado, de drogas, bateram no meu bar com seis motos, trocentas viaturas. Foram fiscalizações duas noites seguidas, quebraram tudo. Alegaram perturbação de sossego alheio, mas era só pedir para abaixar o som, e não quebrar tudo. 

Me trataram como lixo. 

Vi que todo o investimento, carinho que tive para montar o bar, que era de alto luxo, foi jogado ao relento. 

A PM de lá invadiu sem a Fiscalização Municipal, minha esposa teve uma arma de grosso calibre apontado para o rosto dela. Foi horrível. Foi um jogo político. Chorei muito. 

O que aconteceu comigo vazou a nível AMFRI, gerando indignação. Tive apoio do governo de Balneário, me estenderam a mão quando eu mais precisava. Fechei a casa em Navegantes, não vou perder todo o investimento, mas foi muita sujeira que aconteceu. 

Até então eu não acreditava em psicólogo, me considerava muito autodidata, acreditava que a morte era natural. 

Eu queria viver, por isso decidi abrir o clube em Balneário e assim ser mais presente para a minha família, queria que meu filho tivesse o pai presente, como eu não tive. 

Mas eu me vi precisando de ajuda, o Geovan Maciel, que atua na prefeitura, me levou para o Abraço a Vida, tive ajuda da fantástica psicóloga Vivi; entrei empresário, teoricamente bem-sucedido, e fui muito bem atendido em um serviço gratuito. 

Inicialmente tive medo que vissem minhas fraquezas, mas aprendi que com um limão se faz uma limonada, de um problema se faz solução, de uma crise se faz a mudança. Reabri meu clube em Balneário, que está tendo um bom público. 

Chorei de emoção por isso, porque graças a Deus a justiça começou a ser feita. 

Hoje estou fazendo uma coisa que jamais imaginei – decidi me tornar voluntário, estou dando aulas gratuitas de DJ no Abraço, para crianças, jovens, adultos e até idosos! 

Vejo que não tem preço essa convivência. 

O Abraço mudou a minha vida. 

Conheci o mundo todo, vi culturas diferentes, tive experiências de todos os ângulos que vou levar para a vida, mas tive sentimento de que queria me matar, pensei no que ia ficar com a minha mulher [questão patrimonial]. 

Estou medicado e todos os remédios foram disponibilizados pela prefeitura. Não estou 100%, mas quero ficar. 

Não tivemos apoio nenhum dos governos de SC e Federal. Não temos culpa de que não compraram vacinas, não posso pagar esse preço. Os danos disso ainda estão sendo calculados, muitas pessoas perderam tudo. 

Em Balneário tem sido diferente, posso dizer que a gestão do Fabrício salvou a minha vida”.


“Naquele dia o meu único pensamento
era tirar a minha própria vida” 

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Guilherme foi um dos primeiros atendidos pelo Abraço a Vida

(foto Arquivo pessoal)

Guilherme Melchior, gerente de restaurante, 27 anos

“29 de outubro de 2018, mais um sábado de trabalho normal, infelizmente mais um dia com pensamentos ruins, mais um sábado com vontade de tirar a minha própria vida, vontade a qual eu já havia falado para meus parentes, mas depressão é ‘coisa de rico’, como eu escutei muito. 

Fui trabalhar mesmo assim, durante umas três horas naquele dia o meu único pensamento era tirar a minha própria vida, estava angustiado, suando frio, inquieto, andava de um lado para o outro. 

Postei no Facebook uma despedida, falei o motivo que estava fazendo aquilo, falei que amava a minha mãe. 

Enfim, criei coragem, peguei um fio, coloquei na tomada e segurei na ponta dele com a mão molhada – na intenção de levar um choque elétrico. 

Graças a Deus não deu certo, graças a Deus existe o Abraço a Vida. 

Três anos depois eu continuo vivo, continuo com os meus sonhos e planos. Graças a Deus, hoje não tenho mais pensamentos ruins, não escuto mais vozes à noite, não vejo mais coisas ao meu redor. Sempre que possível estou envolvido com os projetos do Abraço, pois fui um dos primeiros que eles atenderam e sou eternamente grato. Devido ao meu trabalho eu vivo viajando de cidade em cidade, mas sempre que estou em BC eu vou lá ver o pessoal. Eu sempre faço questão de contar para todos a minha história e ajudar a todos que me procuram”.


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