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Benção a casais LGBTQIA+ fratura Igreja Católica pelo mundo

(FOLHAPRESS) – “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade”, ponderou o então recém-eleito papa Francisco, em 2013, “quem sou eu para julgá-la?”

Passados 11 anos, é o pontífice quem agora está sob julgamento de alguns de seus pares católicos, após aprovar um dos mais ruidosos documentos do Vaticano nos últimos tempos -a Fiducia Supplicans que, divulgada em dezembro, autoriza padres a abençoarem casais do mesmo sexo.

O novo aceno de Francisco à comunidade LGBTQIA+ alargou o fosso entre seu papado e setores conservadores da Igreja Católica.

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Não que rebeliões mais afrontosas nas dioceses sejam regra, do tipo “o papa não me representa”, o que nem seria esperado numa instituição de estrutura hierárquica tão vertical quanto a Santa Sé. Mas o desconforto com um líder progressista demais para o paladar tradicionalista de parte do clero não é um mero cisco na visão católica geral.

A oposição mais aberta veio da África, onde o catolicismo tem prosperado como em nenhum outro continente —ainda que a América Latina possua a maior população mundial dessa fé, dados do Vaticano mostram expansão acelerada nos países africanos tanto no número de fiéis quanto no de padres.

Primeiro, o sopro, depois, a mordida. Na mesma declaração conjunta em que reafirmam “inabalável apego” ao papa, bispos africanos disseram que as bênçãos propostas pelo andar de cima da Igreja “não podem ser implementadas” na região “sem expor [a instituição] a escândalos”. A carta é assinada por um cardeal congolês, Fridolin Ambongo Besungu, nomeado arcebispo por Francisco em 2018.

As conferências episcopais locais, segundo Ambongo, devem tratar “as pessoas com tendências homossexuais com respeito e dignidade”, desde que não as façam esquecer que “as uniões homossexuais são contrárias à vontade de Deus e, portanto, não podem receber a bênção da Igreja”.

O próprio Vaticano já havia dito, em janeiro, que a “cultura local” deveria ser levada em conta com “prudência e atenção”. Caberia ao bispo da área, com seu “poder de discernimento in loco”, avaliar o contexto. O que não vale é “uma negação total ou definitiva deste caminho que é proposto aos sacerdotes”, ou seja, dizer que o padre não pode abençoar uma união gay e ponto final.

A Santa Sé reconheceu, contudo, que alguns cantos do mundo impõem até restrições legais para um gesto assim. “Se existem leis que condenam o simples ato de se declarar homossexual com prisão e, em alguns casos, com tortura e até morte, nem é preciso dizer que uma bênção seria imprudente”, disse o cardeal Víctor Manuel Fernández, à frente do Dicastério para a Doutrina da Fé, departamento responsável pela declaração que vem fraturando a comunidade católica.

Só para ficar num exemplo: o presidente do Burundi, Evariste Ndayishimiye, um católico fervoroso que em 2022 foi ao Vaticano se encontrar com o papa, disse há algumas semanas que a homossexualidade seria uma maldição para a nação africana. Melhor apedrejar gays em estádios. “E isso não pode ser pecado”, completou.

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No mesmo texto em que diz compreender exceções pontuais, Fernández ressalta que não há nada de herético na mudança doutrinária. A condução do caso todo, no entanto, colocou-o na berlinda. Especialistas dizem que ele poderia ter sido mais habilidoso ao publicar a Fiducia, um previsível prato cheio para controvérsia interna.

A África não foi a única a receber mal a nova orientação doutrinária. Houve reações mistas na América Latina e nos Estados Unidos, entre o elogio e o arrepio sobretudo de “grupos tradicionalistas que resistem a qualquer coisa que venha de Francisco”, afirma Filipe Domingues, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde se formou doutor.

As respostas mais favoráveis partiram da Alemanha e da França. Um conselho de bispos francês chegou a definir o documento “como um incentivo aos padres para abençoarem generosamente aqueles que se aproximam deles pedindo humildemente a ajuda de Deus”.

O Brasil, sublinha Domingues, costuma adotar uma postura mais passiva perante o Vaticano. Mas ao menos uma fala do presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler, foi celebrada por defensores de direitos LGBTQIA+ dentro da Igreja.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, Spengler disse que “alguns ambientes religiosos”, católicos inclusive, sofrem “as consequências de um moralismo exacerbado”. Especificamente sobre a deliberação que afeta enlaces homoafetivos: “Faço uma pergunta muito simples: são pessoas? Se são pessoas, merecem o nosso respeito também. E quando se aproximam pedindo uma bênção, imagino que buscam também uma palavra de conforto, de esperança, de fazer frente à própria situação que vivem. Não podemos negar [isso a elas]”.

Ainda não se tem notícia de uma ampla adesão à recomendação da Santa Sé. Luis Rabello, coordenador da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, destaca movimentos como o do padre americano James Martin, jesuíta como o papa, de quem é próximo. “Ao lado de muitos colegas, terei agora o prazer de abençoar meus amigos em casamentos entre o mesmo sexo”, ele disse após ficar sabendo da guinada na postura oficial da Igreja.

Dois anos antes, o Vaticano havia dito que Deus “não pode nem deve abençoar pecados”. Poderia apenas abençoar “o pecador, para que reconheça que faz parte do Seu plano de amor e se deixe mudar por Ele”.

No início da semana, Francisco também sentiu a necessidade de se posicionar sobre a atualização doutrinária, que afirmou ter sido mal compreendida. “O perigo é que, se eu não gosto de algo e coloco [a oposição] em meu coração, me torno uma resistência e tiro conclusões feias”, disse à TV italiana. “Foi o que aconteceu com essas últimas decisões sobre bênçãos para todos.”

A amplitude do ato não atinge somente parceiros homoafetivos. Divorciados que se unam novamente a alguém também estão no pacote.

Para Domingues, da Universidade Gregoriana de Roma, a mais recente declaração do papa sobre o tema dá brecha para uma leitura menos amigável à causa LGBTQIA+. A nova diretriz católica, afinal, não mudou a concepção da Santa Sé sobre relações homossexuais, ainda tabeladas como infração moral.

“Deus abençoa a todos”, disse o pontífice. “Mas aí as pessoas têm que entrar em diálogo com a bênção do Senhor e ver o caminho que o Senhor propõe. Nós [a igreja] temos que tomá-los pela mão e conduzi-los por esse caminho e não condená-los desde o início.”

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