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Balneário Camboriú

“A garça, o Canal e a Crônica”, por Jamil Albuquerque

Memória & Histórias 30 anos JP3

(Equipe de funcionários e colaboradores)

Durante esses 30 anos de jornalismo do Página3, passaram pela redação dezenas de funcionários e colaboradores, esse relato é de um deles.

Certa ocasião, bem lá no iniciozinho da década de 1990, numa manhã quente de sexta-feira, eu estava caminhando a passos largos na avenida Brasil bem ali onde hoje fica o hotel Sibara, e ali havia, por essa, época um córrego. 

Um córrego de muito péssimo aspecto, diga-se. Em tempos mais antigos – nessa época citada estava mais para um esgoto a céu aberto – ele era um pequeno rio navegável. Todos o conhecem como Canal Marambaia.

Ele passava por aquela região central; por isso certo trecho da passagem do rio ficou conhecido como avenida da Lagoa. 

Hoje, claro, ele está canalizado ao longo de todo seu percurso urbano.

Na época, como já mencionei, o rio havia se tornado quase totalmente em esgoto. 

Mas naquela manhã mencionada eu tive a sorte de ver uma bela e enorme garça tomando sol na beirinha do canal, a poucos passos da calçada. 

N’um pé, como costumam ficar, ela olhava em direção a avenida, como se vigiasse a caminhada dos passantes.  

Diz-se que na arte a compreensão do que se vê está intimamente ligada à emoção sentida. Talvez por isso meu entendimento daquela simples visão fosse de que a natureza, por mais espremida e maltratada que fosse , sempre haveria de sair vitoriosa; foi exatamente esta a emoção que senti ao me deparar com a inusitada cena. 

Não estou bem certo se foi imediatamente – a passagem de três décadas faz a memória misturar alguns detalhes – mas lembro que mencionei o fato para o Bola Teixeira. 

Aqui é que a memória me falha: não lembro se ele foi lá fotografar a garça, ou se eu mesmo fotografei e dei a foto à ele.

O leitor me perdoará a imprecisão: são dificuldades inerentes nesta categoria de relato.

Estou certo, porém, daquilo que capturou nosso olhar naquele episódio. 

Foi o bruto contraste e também suas semelhanças. Isto é que nos fez prestar atenção. 

A brancura da ave contra o verde escuro e repulsivo da água do córrego. 

A natureza intocada da garça com o riozinho que havia se tornado receptor de dejetos da cidade. 

A leveza e pequenez do pássaro contra a grandeza e o peso do concreto dos prédios em torno.    

A severa solidão do delicado bichinho voador com a solidão de tantos que , de dentro de seus apartamentos vizinhos, viam os dias passarem a sós em suas sacadas, olhando o movimento como a garça olhava os passantes na calçada. 

Rememoro essa cena hoje porque aquilo virou uma pequena nota, quase crônica, no Página 3.   

Recordo-me disto com satisfação para lembrar a todos nós que nestes 30 anos o Pagina 3 registrou tudo nessa cidade: dos micro movimentos aos macro movimentos nesse universo fantástico que é Balneário Camboriú.

Diz-se, de modo muito elogioso, que os jornais são o rascunho da história, pois fornecem farto material sobre o qual posteriormente os grandes historiadores escrevem suas obras; sendo isto uma verdade, o Página 3 cumpre com louvor a sua parte neste oficio. 

Posso dizer que conheço muito bem a cidade, e não é possível contar a história dela sem contar a história deste prestigiado jornal.

(Arquivo Pessoal)

Nota da Redação: Jamil Albuquerque foi colunista do Jornal Página 3, residiu em Balneário Camboriú por 28 anos, atualmente reside em Ribeirão Preto. É hoje presidente do Mastermind da Fundação Napoleon Hill

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