Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ATLANTES DE TULA

Tula - chamada Tollan-Xicocotitlan - fica a 70 km da Cidade do México, em plena região semidesértica. Nenhum viajante se daria ao trabalho de ir até lá, se não fossem as espetaculares ruínas da antiga capital do povo Tolteca (700-1179 dC), às quais pertencem os impressionantes Atlantes de Tula. A capital tolteca ocupou uma área de 16 km², com aproximadamente 30 mil habitantes. Foi uma das maiores cidades pré-colombianas do antigo México.

A primeira referência que temos dessas ruínas data do século XVI. São mencionadas pelo Frei Bernardino de Sahagún, como “Morro dos Tesouros”. Em 1873, o acadêmico Antonio G. Cubas arriscava descreveu a antiga Tula para a Sociedade Mexicana de História e Geografia. Em 1885, Désiré Charnay - um antiquário francês - fez escavações na intenção de obter tesouros perdidos para venda à colecionadores. Somente em 1940, o arqueólogo Jorge Ruffier Acosta executa um projeto sério de escavações que durou mais de 20 anos, sob apoio do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e História). Outras só ocorreriam na década de 1970, com a reconstrução de vários edifícios.

Nesse contexto, surgem os Atlantes de Tula, quatro gigantescas estátuas antropomorfas esculpidas em basalto e forma de coluna - medindo mais de 4,6 metros cada - que hoje ocupam o topo da Pirâmide B, também conhecida como Templo de Tlahuizcalpantecutli. Suas imagens representam o deus Quetzalcóatl, vestindo roupas de guerra, com proteção peitoral, punhais, dardos e átlatl (lançador de dardos). Acredita-se que os monumentos seguravam o teto de um espaço sagrado, construído no topo da pirâmide. Quando o arqueólogo Jorge R. Acosta os descobriu em 1940, estavam tombadas e partidas.
A impressionante beleza estética das figuras, resgata diversos elementos pertencentes aos guerreiros toltecas, como o uso de sandálias, disco de proteção preso às costas, tocado com proteção para orelhas e braceletes. Quanto ao peitoral em formato de mariposa, ele representa o deus Xiuhtecuhtli (Senhor Precioso) uma das divindades dos povos nômades do Norte, relacionado ao fogo. Também existe associação com Huehueteotl (Senhor Velho), representado por um braseiro em chamas.

A antiga capital tolteca foi uma grande sociedade multiétnica e socialmente estratificada. Ali viviam diversos povos originários das mais distantes regiões, como os teotihuacanos, chichimecas e mexicas. A descoberta dos Atlantes nos mostra como a guerra era importante para esses povos, pois no mesmo local foram encontrados relevos de jaguares e águias devorando corações, e de serpentes engolindo guerreiros inimigos. Acredita-se hoje, que a guerra para os toltecas exerceu um papel transcendental, e que exercê-la era um ato religioso.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/03/2019 às 10h20 | daltonmaziero@uol.com.br

CENTÉOTL – A DEUSA DO MILHO

Algumas civilizações da história, como a egípcia, hindu ou mesopotâmica, possuíram uma gama enorme de deuses, cada qual destinado a um fenômeno natural, sentimento, objeto ou ação. Da mesma forma, a antiga América também apresentou seu panteão de divindades com centenas de representantes para todas as classes e categorias imagináveis. Um dos mais importantes deuses americanos – chamado Centéotl – foi dedicado ao milho.

Na mitologia dos Mexicas (México), Centéotl era o deus do milho e patrono dos embriagados. Isso porque com o milho fermentado, se tirava uma bebida alcoólica espiritual, usada em rituais. Também devia sua importância ao fato de o milho ser uma das principais fontes de alimento na Mesoamérica. Um dado interessante desta entidade era sua dualidade sexual. Ele foi representado como homem (Centéotl) ou como mulher (Chicomecóatl).

Sua celebração ocorria no quarto mês mexica (Huey Tozoztli) e era associada ao milho seco, que serviria de semente para gerar na terra, novos milhos. Devido ao seu caráter germinador, a imagem desse deus remetia à fertilidade, agricultura, colheita, natureza, beleza e sexualidade. Embora existam várias versões de sua lenda, uma das mais correntes fala da entidade como filho de Piltzinteuctli e Xochiquétzal, que o geraram na terra, lugar onde Centéotl se escondia. Uma vez debaixo da terra, passa a germinar outras plantas com suas características. Dessa forma, seus cabelos – fios loiros da espiga – geraram o algodão; assim como seus dedos geraram os camotes (batata doce). Por essa contribuição, o deus do milho é chamado comumente de “Deus Amado”.

Existiam vários cultos dedicados a Centéotl. Em um deles, os grãos secos do milho eram agrupados em sete unidades, e levados ao templo de Chicomecóatl. Aqueles grãos “abençoados” seriam então armazenados e posteriormente utilizados nos plantios. Existia também um ritual mais pessoal, onde cada agricultor recolhia os melhores grãos de seu próprio cultivo, secando-os. Esses grãos eram oferecidos à deusa em suas casas e depois utilizados como sementes em novo plantio.

O estudo representativo desse deus mesoamericano não é fácil, pois é possível que essa entidade dual represente também uma série de outras entidades partilhadas, ou seja, que Centéotl seja um conjunto de deusas. Algumas delas serial: Tlatlauhquicenteotl (deusa do milho vermelho); Iztaccenteotl (deusa do milho branco); Xilonen (fase de crescimento da espiga), entre outros. Da mesma forma, o deus foi ritualizado por outros grupos, como os totonacas, que para ele construíram cinco templos – inclusive no topo de montanhas – dedicando-lhe sacerdotes próprios e sacrifícios de animais, como coelhos e codornas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/02/2019 às 09h52 | daltonmaziero@uol.com.br

TULOR – VIDA EM MEIO AO DESERTO

Estive no deserto do Atacama em 1990. Naquela época – quase 30 anos atrás – o povoado de San Pedro de Atacama era sinônimo de aventura. Água e luz elétrica eram luxos que duravam apenas algumas horas do dia. Não haviam ruas pavimentadas nem hotéis estabelecidos. Era tudo muito rústico, e por isso, tudo muito original. Caminhar pela noite nos arredores do povoado sem luz, era um convite a presenciar a Via Láctea em todo seu esplendor.

Não é preciso ser muito observador para notar que aquela região é antiquíssima! Vestígios de antigos povos podem ser vistos ainda hoje, no Museu Gustav Le Paige, ou nas ruinas arqueológicas de Pukara e Tulor. Não sem motivo, foi naquele oásis que surgiram alguns dos mais antigos assentamentos da região.

Desde San Pedro de Atacama é possível chegar a estes sítios a pé, com um pouco de boa disposição. A Aldeia de Tulor dista cerca de 7 Km do centro da cidade, por um caminho árido, onde podemos observar um cenário que não teve grandes alterações nos últimos milhares de anos. Os primeiros vestígios de Tulor vieram a luz em 1956, pelas mãos do jesuíta arqueólogo belga Gustavo Le Paige de Walque (1903-1980), e depois, já na década de 1980 pela arqueóloga Ana María Barón. Os objetos encontrados nesses quase 30 anos de pesquisa mostram uma aldeia sedentária, ativa cerca de 700 anos aC.

É notável a arquitetura empregada em Tulor, composta de uma série de estruturas circulares interligadas. Elas serviam não apenas como residências, mas também como depósitos, espaços sagrados ou de reuniões. Foram construídas de modo semi-subterrâneo, com o centro interno do espaço rebaixado em relação ao solo. Esse tipo de arquitetura foi comum em antigos povos, e lembra muito uma “colmeia de abelhas”. Podemos encontrar semelhanças em Wankarani (Bolívia) e Potrero Grande (Argentina), lugares com o mesmo alcance cultural em épocas remotas.

Foram encontrados em Tulor, sementes, vasilhas, têxteis, couro, penas de aves tropicais e conchas, além de produtos que levam a crer que ela fazia parte de uma rede de mobilidade sagrada-comercial que ocorria há centenas de anos no norte do Chile. Esses caminhos eram ocupados por caravanas de lhamas, que traziam produtos de terras distantes e que usavam o oásis de Atacama como ponto de parada e recuperação. A datação de cerâmicas aponta que sua ocupação se estendeu, pelo menos, até o século V dC.

Tulor também representa uma experiência importante na conservação do patrimônio histórico chileno. Após figurar como um dos 100 sítios arqueológicos mais ameaçados do planeta, sua administração em 2002 ficou aos cuidados da Comunidade Indígena de Coyo, ganhadora do Prêmio de Conservação de Monumentos Nacionais pelo seu trabalho.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/01/2019 às 11h16 | daltonmaziero@uol.com.br

PUMA PUNKU – UM QUEBRA CABEÇA EM 3D

Estive ao menos quatro vezes em Puma Punku, na Bolívia. Em todas, sai daquelas ruínas com a nítida impressão de estar diante de um dos maiores desafios arqueológicos das Américas. Puma Punku foi construída ao redor do século VI. É na realidade, um templo que parece erguido em forma de pirâmide escalonada. Está situado dentro das ruínas de Tiwanaku, uma enorme cidade pré-colombiana às margens do lago Titicaca, em pleno altiplano boliviano, partilhado também com o Peru.

Puma Punku é formada por quatro terraços ladeada por lousas de pedra. Sobre esses terraços, foram colocados estranhos blocos, formando um edifício que nunca foi finalizado. Suas dimensões totais são de aproximadamente 116 x 167 metros. Acredita-se que a altura esteja no passado, por volta de 18 metros. O que mais intriga os visitantes de Puma Punku são seus colossais blocos de pedras, cortados e polidos à exaustão. Alguns deles chegam a pesar 20 toneladas, apresentando recortes tão detalhados, que nos fazem pensar sobre sua real utilização, ou como na realidade, se encaixavam umas às outras.

Agora, uma iniciativa pioneira – apoiada em alta tecnologia – propõe recriar esse monumento. Uma vez que é impossível manusear fisicamente suas enormes pedra para buscar a forma original da construção, a Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA) reproduziu-os em miniatura, com a ajuda de um software e impressora 3D. O resultado foi a criação de 157 peças que formam um “quebra cabeça” tridimensional.

O projeto foi concebido pelo arqueólogo Alexei Vranic que, baseado em rigorosas medidas, recriou as peças em uma escala que representa 4% de seu tamanho real. Dessa forma, a manipulação em busca da forma original do monumento ganha novas perspectivas. Segundo Alexei, “A intenção de nosso projeto era traduzir esses dados em algo que nossas mãos e nossas mentes pudessem compreender. A impressão em miniatura dos modelos em 3D das pedras, nos permitiu manejar e reorganizar rapidamente os blocos para tentar recriar a estrutura”.

A proposta de construção através do recurso 3D provavelmente irá ajudar os cientistas a decifrar o uso prático daquele templo. A primeira conclusão do experimento mostra que a duplicação de portas em diferentes tamanhos, ao se encaixarem, passam a impressão de um espelho, como se a pessoa que adentrasse ao templo contemplasse o infinito.

Com essa aplicação técnica em Puma Punku, é possível agora pensar na mesma ação em relação a outros sítios arqueológicos, como Angkor Wat ou Palmira, destruída nos recentes conflitos na Síria.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/01/2019 às 20h06 | daltonmaziero@uol.com.br

Museu da Natureza

Crédito fotográfico: André Pessoa

Depois de ver queimar – de forma inconsequente – o Museu Nacional no Rio de Janeiro, finalmente recebemos a boa notícia da criação do Museu da Natureza (Piauí), localizado na zona de entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara. Ele não irá substituir as peças perdidas no Rio de Janeiro, mas certamente dará um novo fôlego, e quem sabe um novo direcionamento de maior respeito, ao Patrimônio Nacional, que conta com possibilidades incríveis de formação de coleções.

O Museu da Natureza não é um museu de arqueologia, embora reserve espaço para áreas afins. Sua preocupação é outra. A começar por sua inovadora arquitetura em forma de espiral, planejado e dividido em 12 grandes salas. Seu acervo explora a megafauna e natureza brasileira, situando-a dentro da história geológica do Brasil, do mundo e do universo. Sim, do Universo, pois ele se preocupa em explicar aos seus visitantes a origem da vida até os tempos atuais.

A exemplo dos modernos museus, suas salas são interativas. O visitante pode manusear experimentos com ímãs (atração de corpos celestes), observar rochas primitivas e meteoritos com microscópios ou brincar com massas terrestres em um globo gigante. A interatividade permite até um sobrevoo simulado sobre a Serra da Capivara e observação da fauna pré-histórica nos primórdios da caatinga, composta de tigres dente de sabre, dinossauros, ursos, preguiças gigantes, animais marinhos e trilobitas.

Segundo Marcello Dantas - Curador do Museu – a ideia inicial surgiu da arqueóloga Niède Guidon, pioneira no estudo do passado da região: “A ideia de construir o Museu da Natureza partiu de Niède Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza”. Niède tem razão!

O Brasil, apesar de sua enorme riqueza e potencial em recursos naturais, apresenta ainda um baixo índice de unidades (Parques Nacionais) visitadas por nossa população. Só para se ter uma ideia, no Brasil são 10 milhões de visitas anuais, enquanto nos EUA, são mais de 307 milhões! Com a inauguração do Museu da Natureza, espera-se aumentar esse índice de visitação.

Foram mais de 50 anos de estudos na região para reunir provas e conhecimentos suficientes para a formação deste novo museu. E o local escolhido não poderia ser melhor! Localizado próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO - e considerada uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos do mundo (1.354 sítios registrados) representados por milhares de pinturas rupestres datadas entre 6 a 12 mil anos de antiguidade. O Museu da Natureza aguarda agora, a nossa visita, para fortalecer sua existência e permitir seu reconhecimento.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/01/2019 às 10h24 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ATLANTES DE TULA

Tula - chamada Tollan-Xicocotitlan - fica a 70 km da Cidade do México, em plena região semidesértica. Nenhum viajante se daria ao trabalho de ir até lá, se não fossem as espetaculares ruínas da antiga capital do povo Tolteca (700-1179 dC), às quais pertencem os impressionantes Atlantes de Tula. A capital tolteca ocupou uma área de 16 km², com aproximadamente 30 mil habitantes. Foi uma das maiores cidades pré-colombianas do antigo México.

A primeira referência que temos dessas ruínas data do século XVI. São mencionadas pelo Frei Bernardino de Sahagún, como “Morro dos Tesouros”. Em 1873, o acadêmico Antonio G. Cubas arriscava descreveu a antiga Tula para a Sociedade Mexicana de História e Geografia. Em 1885, Désiré Charnay - um antiquário francês - fez escavações na intenção de obter tesouros perdidos para venda à colecionadores. Somente em 1940, o arqueólogo Jorge Ruffier Acosta executa um projeto sério de escavações que durou mais de 20 anos, sob apoio do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e História). Outras só ocorreriam na década de 1970, com a reconstrução de vários edifícios.

Nesse contexto, surgem os Atlantes de Tula, quatro gigantescas estátuas antropomorfas esculpidas em basalto e forma de coluna - medindo mais de 4,6 metros cada - que hoje ocupam o topo da Pirâmide B, também conhecida como Templo de Tlahuizcalpantecutli. Suas imagens representam o deus Quetzalcóatl, vestindo roupas de guerra, com proteção peitoral, punhais, dardos e átlatl (lançador de dardos). Acredita-se que os monumentos seguravam o teto de um espaço sagrado, construído no topo da pirâmide. Quando o arqueólogo Jorge R. Acosta os descobriu em 1940, estavam tombadas e partidas.
A impressionante beleza estética das figuras, resgata diversos elementos pertencentes aos guerreiros toltecas, como o uso de sandálias, disco de proteção preso às costas, tocado com proteção para orelhas e braceletes. Quanto ao peitoral em formato de mariposa, ele representa o deus Xiuhtecuhtli (Senhor Precioso) uma das divindades dos povos nômades do Norte, relacionado ao fogo. Também existe associação com Huehueteotl (Senhor Velho), representado por um braseiro em chamas.

A antiga capital tolteca foi uma grande sociedade multiétnica e socialmente estratificada. Ali viviam diversos povos originários das mais distantes regiões, como os teotihuacanos, chichimecas e mexicas. A descoberta dos Atlantes nos mostra como a guerra era importante para esses povos, pois no mesmo local foram encontrados relevos de jaguares e águias devorando corações, e de serpentes engolindo guerreiros inimigos. Acredita-se hoje, que a guerra para os toltecas exerceu um papel transcendental, e que exercê-la era um ato religioso.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/03/2019 às 10h20 | daltonmaziero@uol.com.br

CENTÉOTL – A DEUSA DO MILHO

Algumas civilizações da história, como a egípcia, hindu ou mesopotâmica, possuíram uma gama enorme de deuses, cada qual destinado a um fenômeno natural, sentimento, objeto ou ação. Da mesma forma, a antiga América também apresentou seu panteão de divindades com centenas de representantes para todas as classes e categorias imagináveis. Um dos mais importantes deuses americanos – chamado Centéotl – foi dedicado ao milho.

Na mitologia dos Mexicas (México), Centéotl era o deus do milho e patrono dos embriagados. Isso porque com o milho fermentado, se tirava uma bebida alcoólica espiritual, usada em rituais. Também devia sua importância ao fato de o milho ser uma das principais fontes de alimento na Mesoamérica. Um dado interessante desta entidade era sua dualidade sexual. Ele foi representado como homem (Centéotl) ou como mulher (Chicomecóatl).

Sua celebração ocorria no quarto mês mexica (Huey Tozoztli) e era associada ao milho seco, que serviria de semente para gerar na terra, novos milhos. Devido ao seu caráter germinador, a imagem desse deus remetia à fertilidade, agricultura, colheita, natureza, beleza e sexualidade. Embora existam várias versões de sua lenda, uma das mais correntes fala da entidade como filho de Piltzinteuctli e Xochiquétzal, que o geraram na terra, lugar onde Centéotl se escondia. Uma vez debaixo da terra, passa a germinar outras plantas com suas características. Dessa forma, seus cabelos – fios loiros da espiga – geraram o algodão; assim como seus dedos geraram os camotes (batata doce). Por essa contribuição, o deus do milho é chamado comumente de “Deus Amado”.

Existiam vários cultos dedicados a Centéotl. Em um deles, os grãos secos do milho eram agrupados em sete unidades, e levados ao templo de Chicomecóatl. Aqueles grãos “abençoados” seriam então armazenados e posteriormente utilizados nos plantios. Existia também um ritual mais pessoal, onde cada agricultor recolhia os melhores grãos de seu próprio cultivo, secando-os. Esses grãos eram oferecidos à deusa em suas casas e depois utilizados como sementes em novo plantio.

O estudo representativo desse deus mesoamericano não é fácil, pois é possível que essa entidade dual represente também uma série de outras entidades partilhadas, ou seja, que Centéotl seja um conjunto de deusas. Algumas delas serial: Tlatlauhquicenteotl (deusa do milho vermelho); Iztaccenteotl (deusa do milho branco); Xilonen (fase de crescimento da espiga), entre outros. Da mesma forma, o deus foi ritualizado por outros grupos, como os totonacas, que para ele construíram cinco templos – inclusive no topo de montanhas – dedicando-lhe sacerdotes próprios e sacrifícios de animais, como coelhos e codornas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/02/2019 às 09h52 | daltonmaziero@uol.com.br

TULOR – VIDA EM MEIO AO DESERTO

Estive no deserto do Atacama em 1990. Naquela época – quase 30 anos atrás – o povoado de San Pedro de Atacama era sinônimo de aventura. Água e luz elétrica eram luxos que duravam apenas algumas horas do dia. Não haviam ruas pavimentadas nem hotéis estabelecidos. Era tudo muito rústico, e por isso, tudo muito original. Caminhar pela noite nos arredores do povoado sem luz, era um convite a presenciar a Via Láctea em todo seu esplendor.

Não é preciso ser muito observador para notar que aquela região é antiquíssima! Vestígios de antigos povos podem ser vistos ainda hoje, no Museu Gustav Le Paige, ou nas ruinas arqueológicas de Pukara e Tulor. Não sem motivo, foi naquele oásis que surgiram alguns dos mais antigos assentamentos da região.

Desde San Pedro de Atacama é possível chegar a estes sítios a pé, com um pouco de boa disposição. A Aldeia de Tulor dista cerca de 7 Km do centro da cidade, por um caminho árido, onde podemos observar um cenário que não teve grandes alterações nos últimos milhares de anos. Os primeiros vestígios de Tulor vieram a luz em 1956, pelas mãos do jesuíta arqueólogo belga Gustavo Le Paige de Walque (1903-1980), e depois, já na década de 1980 pela arqueóloga Ana María Barón. Os objetos encontrados nesses quase 30 anos de pesquisa mostram uma aldeia sedentária, ativa cerca de 700 anos aC.

É notável a arquitetura empregada em Tulor, composta de uma série de estruturas circulares interligadas. Elas serviam não apenas como residências, mas também como depósitos, espaços sagrados ou de reuniões. Foram construídas de modo semi-subterrâneo, com o centro interno do espaço rebaixado em relação ao solo. Esse tipo de arquitetura foi comum em antigos povos, e lembra muito uma “colmeia de abelhas”. Podemos encontrar semelhanças em Wankarani (Bolívia) e Potrero Grande (Argentina), lugares com o mesmo alcance cultural em épocas remotas.

Foram encontrados em Tulor, sementes, vasilhas, têxteis, couro, penas de aves tropicais e conchas, além de produtos que levam a crer que ela fazia parte de uma rede de mobilidade sagrada-comercial que ocorria há centenas de anos no norte do Chile. Esses caminhos eram ocupados por caravanas de lhamas, que traziam produtos de terras distantes e que usavam o oásis de Atacama como ponto de parada e recuperação. A datação de cerâmicas aponta que sua ocupação se estendeu, pelo menos, até o século V dC.

Tulor também representa uma experiência importante na conservação do patrimônio histórico chileno. Após figurar como um dos 100 sítios arqueológicos mais ameaçados do planeta, sua administração em 2002 ficou aos cuidados da Comunidade Indígena de Coyo, ganhadora do Prêmio de Conservação de Monumentos Nacionais pelo seu trabalho.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/01/2019 às 11h16 | daltonmaziero@uol.com.br

PUMA PUNKU – UM QUEBRA CABEÇA EM 3D

Estive ao menos quatro vezes em Puma Punku, na Bolívia. Em todas, sai daquelas ruínas com a nítida impressão de estar diante de um dos maiores desafios arqueológicos das Américas. Puma Punku foi construída ao redor do século VI. É na realidade, um templo que parece erguido em forma de pirâmide escalonada. Está situado dentro das ruínas de Tiwanaku, uma enorme cidade pré-colombiana às margens do lago Titicaca, em pleno altiplano boliviano, partilhado também com o Peru.

Puma Punku é formada por quatro terraços ladeada por lousas de pedra. Sobre esses terraços, foram colocados estranhos blocos, formando um edifício que nunca foi finalizado. Suas dimensões totais são de aproximadamente 116 x 167 metros. Acredita-se que a altura esteja no passado, por volta de 18 metros. O que mais intriga os visitantes de Puma Punku são seus colossais blocos de pedras, cortados e polidos à exaustão. Alguns deles chegam a pesar 20 toneladas, apresentando recortes tão detalhados, que nos fazem pensar sobre sua real utilização, ou como na realidade, se encaixavam umas às outras.

Agora, uma iniciativa pioneira – apoiada em alta tecnologia – propõe recriar esse monumento. Uma vez que é impossível manusear fisicamente suas enormes pedra para buscar a forma original da construção, a Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA) reproduziu-os em miniatura, com a ajuda de um software e impressora 3D. O resultado foi a criação de 157 peças que formam um “quebra cabeça” tridimensional.

O projeto foi concebido pelo arqueólogo Alexei Vranic que, baseado em rigorosas medidas, recriou as peças em uma escala que representa 4% de seu tamanho real. Dessa forma, a manipulação em busca da forma original do monumento ganha novas perspectivas. Segundo Alexei, “A intenção de nosso projeto era traduzir esses dados em algo que nossas mãos e nossas mentes pudessem compreender. A impressão em miniatura dos modelos em 3D das pedras, nos permitiu manejar e reorganizar rapidamente os blocos para tentar recriar a estrutura”.

A proposta de construção através do recurso 3D provavelmente irá ajudar os cientistas a decifrar o uso prático daquele templo. A primeira conclusão do experimento mostra que a duplicação de portas em diferentes tamanhos, ao se encaixarem, passam a impressão de um espelho, como se a pessoa que adentrasse ao templo contemplasse o infinito.

Com essa aplicação técnica em Puma Punku, é possível agora pensar na mesma ação em relação a outros sítios arqueológicos, como Angkor Wat ou Palmira, destruída nos recentes conflitos na Síria.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/01/2019 às 20h06 | daltonmaziero@uol.com.br

Museu da Natureza

Crédito fotográfico: André Pessoa

Depois de ver queimar – de forma inconsequente – o Museu Nacional no Rio de Janeiro, finalmente recebemos a boa notícia da criação do Museu da Natureza (Piauí), localizado na zona de entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara. Ele não irá substituir as peças perdidas no Rio de Janeiro, mas certamente dará um novo fôlego, e quem sabe um novo direcionamento de maior respeito, ao Patrimônio Nacional, que conta com possibilidades incríveis de formação de coleções.

O Museu da Natureza não é um museu de arqueologia, embora reserve espaço para áreas afins. Sua preocupação é outra. A começar por sua inovadora arquitetura em forma de espiral, planejado e dividido em 12 grandes salas. Seu acervo explora a megafauna e natureza brasileira, situando-a dentro da história geológica do Brasil, do mundo e do universo. Sim, do Universo, pois ele se preocupa em explicar aos seus visitantes a origem da vida até os tempos atuais.

A exemplo dos modernos museus, suas salas são interativas. O visitante pode manusear experimentos com ímãs (atração de corpos celestes), observar rochas primitivas e meteoritos com microscópios ou brincar com massas terrestres em um globo gigante. A interatividade permite até um sobrevoo simulado sobre a Serra da Capivara e observação da fauna pré-histórica nos primórdios da caatinga, composta de tigres dente de sabre, dinossauros, ursos, preguiças gigantes, animais marinhos e trilobitas.

Segundo Marcello Dantas - Curador do Museu – a ideia inicial surgiu da arqueóloga Niède Guidon, pioneira no estudo do passado da região: “A ideia de construir o Museu da Natureza partiu de Niède Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza”. Niède tem razão!

O Brasil, apesar de sua enorme riqueza e potencial em recursos naturais, apresenta ainda um baixo índice de unidades (Parques Nacionais) visitadas por nossa população. Só para se ter uma ideia, no Brasil são 10 milhões de visitas anuais, enquanto nos EUA, são mais de 307 milhões! Com a inauguração do Museu da Natureza, espera-se aumentar esse índice de visitação.

Foram mais de 50 anos de estudos na região para reunir provas e conhecimentos suficientes para a formação deste novo museu. E o local escolhido não poderia ser melhor! Localizado próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO - e considerada uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos do mundo (1.354 sítios registrados) representados por milhares de pinturas rupestres datadas entre 6 a 12 mil anos de antiguidade. O Museu da Natureza aguarda agora, a nossa visita, para fortalecer sua existência e permitir seu reconhecimento.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/01/2019 às 10h24 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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