Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br

O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br

O MUNDO SUBAQUÁTICO MAIA: CAMINHO PARA O INFRAMUNDO

Foto Herbert Meyrl - Proyecto Gam

No mundo pré-colombiano, a água possuía um importante papel. Não apenas em seu estado líquido, como fonte de vida e plantio; mas também por seu simbolismo como espaço etéreo e sublime. Um espaço idolatrado pelos vivos, mas onde podiam as entidades e mortos, avançar do plano terrestre ao Inframundo, ou mundo dos mortos.

Nos últimos anos, inúmeras descobertas foram realizadas por arqueólogos em diversos países americanos. Sejam em lagos, rios ou cavernas inundadas, vários artefatos encontrados revelaram a ligação existente entre os homens e este espaço fluido e sagrado. No norte da Guatemala, no lago Peten Itza, mergulhadores localizaram 800 peças, entre cerâmicas, taças cerimoniais e lâminas de obsidiana. Junto a elas, pequenos pedaços de ossos de vários animais, supostamente sacrificados. O ato de jogar artefatos nas profundezas das águas – provavelmente um rito cerimonial – vem de longa data, pois muitas das peças datam de 150 aC a 1697 dC; ou seja, mais de 170 anos após a conquista do México pelos espanhóis.

Da mesma forma que ocorreu no lago Titicaca (Peru/Bolívia) e no Guatavita (Colômbia), na Mesoamérica essas porções de água eram acessadas por meio de um barco ou balsa, cuja função era transportar um grupo de sacerdotes ao ponto mais profundo, lugar onde suas oferendas eram lançadas. Os artefatos encontrados no fundo desses locais, revelam muito sobre a cultura material dos antigos povos, assim como a relação que tinham com os seres sobrenaturais.

Na Mesoamérica, um impressionante sistema de cavernas submersas foi localizado no Estado mexicano de Quintana Roo (Yucatã). Esse complexo de mais de 346 quilômetros de extensão forma a maior caverna submersa do mundo. Guillermo de Anda, diretor do Projeto Gran Acuífero Maya, afirma que a caverna é também o mais importante sítio arqueológico submerso do planeta.

O mergulhador alemão Robert Schmittner explica que há mais de 20 anos explora esse labirinto subaquático, e que existem trechos com até 20 quilômetros de profundidade. O mais impressionante é observar a existência de muros, escadarias e altares nas profundezas. Espaços modificados pelos homens que faziam parte de antigas civilizações, entre elas os Maias.

Não importa se a água ocupava uma laguna ou um complexo gigantesco de cavernas submersas. Ela sempre ocupou um importante papel nas crenças humanas sobre o Inframundo. No caso particular das cavernas submersas de Yucatã, mais do que uma oferenda, os homens adentravam fisicamente nesse mundo das profundezas, inserindo-se e aproximando-se do que acreditavam ser, o espaço das entidades que idolatravam e lá viviam.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/08/2019 às 12h16 | daltonmaziero@uol.com.br

O maior painel de gravura rupestre de São Paulo

Uma impressionante descoberta ocorreu no interior do estado de São Paulo, suscitando uma série de indagações sobre o passado do sudeste brasileiro. Em Ribeirão Bonito, um painel com mais de 50 metros de gravuras rupestres pode alterar muito do que conhecemos sobre a ocupação humana na região.

A notícia foi dada pelo pesquisador Astolfo Araujo - Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) USP - que também é coordenador das escavações. É o maior painel de gravuras rupestres localizado em território paulista. Além das gravuras, foram encontrados também carvão queimado, ossos de animais e pedras lascadas.

Apesar da surpreendente descoberta, Astolfo é cauteloso ao interpretar os dados iniciais como revolucionários para a história da região. Segundo o pesquisador: “Com certeza o abrigo de Ribeirão Bonito foi uma surpresa enorme e muito agradável, mostra que em São Paulo temos um potencial muito grande para esse tipo de estudo, e que há aqui coisas tão interessantes como a Pedra do Ingá. Por outro lado, como temos sítios menores, mas com grafismos semelhantes em outros lugares do Sudeste de Sul do Brasil, torna-se mais uma questão de construir o conhecimento de maneira constante do que de uma revolução em si”.

Assim como ocorre com a Pedra do Ingá (PE), os pesquisadores acreditam que dificilmente conseguiremos saber o significado exato de tais símbolos. Seu estudo ocorre pelo registro dos padrões, e pela comparação com outros achados, pautados nas similaridades e diferenças. Dessa forma, a descoberta de Ribeirão Bonito, neste momento, cria mais indagações do que respostas.

Outro problema a ser resolvido é sobre a datação do painel. Existem nas proximidades, sítios com mais de 12 mil anos. Segundo Astolfo, “O Sítio Bastos, em Dourado, que foi datado em 12.500 anos está bem próximo do abrigo com arte rupestre e é muito possível que a mesma população tenha circulado nos dois locais. O problema é que ainda não temos datações confiáveis e nem material escavado suficiente no abrigo para comparar os dois sítios. Vamos precisar pedir mais verba para pesquisa”.

Existe a possibilidade ainda, que o grafismo rupestre signifique uma demarcação territorial. Talvez não uma indicação de caminho a seguir, mas sim um recado do tipo “este local faz parte de nosso território”, uma vez que o alto índice de grafismos sugira uma população constante na região. Além de todas as indagações científicas, a descoberta abre também a possibilidade futura para um “tour arqueológico” nos arredores. Segundo Astolfo, “Seria ótimo para a região, com certeza. Por que não? Na região de Analândia isso funciona muito bem!”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/07/2019 às 18h23 | daltonmaziero@uol.com.br

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br



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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br

O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br

O MUNDO SUBAQUÁTICO MAIA: CAMINHO PARA O INFRAMUNDO

Foto Herbert Meyrl - Proyecto Gam

No mundo pré-colombiano, a água possuía um importante papel. Não apenas em seu estado líquido, como fonte de vida e plantio; mas também por seu simbolismo como espaço etéreo e sublime. Um espaço idolatrado pelos vivos, mas onde podiam as entidades e mortos, avançar do plano terrestre ao Inframundo, ou mundo dos mortos.

Nos últimos anos, inúmeras descobertas foram realizadas por arqueólogos em diversos países americanos. Sejam em lagos, rios ou cavernas inundadas, vários artefatos encontrados revelaram a ligação existente entre os homens e este espaço fluido e sagrado. No norte da Guatemala, no lago Peten Itza, mergulhadores localizaram 800 peças, entre cerâmicas, taças cerimoniais e lâminas de obsidiana. Junto a elas, pequenos pedaços de ossos de vários animais, supostamente sacrificados. O ato de jogar artefatos nas profundezas das águas – provavelmente um rito cerimonial – vem de longa data, pois muitas das peças datam de 150 aC a 1697 dC; ou seja, mais de 170 anos após a conquista do México pelos espanhóis.

Da mesma forma que ocorreu no lago Titicaca (Peru/Bolívia) e no Guatavita (Colômbia), na Mesoamérica essas porções de água eram acessadas por meio de um barco ou balsa, cuja função era transportar um grupo de sacerdotes ao ponto mais profundo, lugar onde suas oferendas eram lançadas. Os artefatos encontrados no fundo desses locais, revelam muito sobre a cultura material dos antigos povos, assim como a relação que tinham com os seres sobrenaturais.

Na Mesoamérica, um impressionante sistema de cavernas submersas foi localizado no Estado mexicano de Quintana Roo (Yucatã). Esse complexo de mais de 346 quilômetros de extensão forma a maior caverna submersa do mundo. Guillermo de Anda, diretor do Projeto Gran Acuífero Maya, afirma que a caverna é também o mais importante sítio arqueológico submerso do planeta.

O mergulhador alemão Robert Schmittner explica que há mais de 20 anos explora esse labirinto subaquático, e que existem trechos com até 20 quilômetros de profundidade. O mais impressionante é observar a existência de muros, escadarias e altares nas profundezas. Espaços modificados pelos homens que faziam parte de antigas civilizações, entre elas os Maias.

Não importa se a água ocupava uma laguna ou um complexo gigantesco de cavernas submersas. Ela sempre ocupou um importante papel nas crenças humanas sobre o Inframundo. No caso particular das cavernas submersas de Yucatã, mais do que uma oferenda, os homens adentravam fisicamente nesse mundo das profundezas, inserindo-se e aproximando-se do que acreditavam ser, o espaço das entidades que idolatravam e lá viviam.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/08/2019 às 12h16 | daltonmaziero@uol.com.br

O maior painel de gravura rupestre de São Paulo

Uma impressionante descoberta ocorreu no interior do estado de São Paulo, suscitando uma série de indagações sobre o passado do sudeste brasileiro. Em Ribeirão Bonito, um painel com mais de 50 metros de gravuras rupestres pode alterar muito do que conhecemos sobre a ocupação humana na região.

A notícia foi dada pelo pesquisador Astolfo Araujo - Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) USP - que também é coordenador das escavações. É o maior painel de gravuras rupestres localizado em território paulista. Além das gravuras, foram encontrados também carvão queimado, ossos de animais e pedras lascadas.

Apesar da surpreendente descoberta, Astolfo é cauteloso ao interpretar os dados iniciais como revolucionários para a história da região. Segundo o pesquisador: “Com certeza o abrigo de Ribeirão Bonito foi uma surpresa enorme e muito agradável, mostra que em São Paulo temos um potencial muito grande para esse tipo de estudo, e que há aqui coisas tão interessantes como a Pedra do Ingá. Por outro lado, como temos sítios menores, mas com grafismos semelhantes em outros lugares do Sudeste de Sul do Brasil, torna-se mais uma questão de construir o conhecimento de maneira constante do que de uma revolução em si”.

Assim como ocorre com a Pedra do Ingá (PE), os pesquisadores acreditam que dificilmente conseguiremos saber o significado exato de tais símbolos. Seu estudo ocorre pelo registro dos padrões, e pela comparação com outros achados, pautados nas similaridades e diferenças. Dessa forma, a descoberta de Ribeirão Bonito, neste momento, cria mais indagações do que respostas.

Outro problema a ser resolvido é sobre a datação do painel. Existem nas proximidades, sítios com mais de 12 mil anos. Segundo Astolfo, “O Sítio Bastos, em Dourado, que foi datado em 12.500 anos está bem próximo do abrigo com arte rupestre e é muito possível que a mesma população tenha circulado nos dois locais. O problema é que ainda não temos datações confiáveis e nem material escavado suficiente no abrigo para comparar os dois sítios. Vamos precisar pedir mais verba para pesquisa”.

Existe a possibilidade ainda, que o grafismo rupestre signifique uma demarcação territorial. Talvez não uma indicação de caminho a seguir, mas sim um recado do tipo “este local faz parte de nosso território”, uma vez que o alto índice de grafismos sugira uma população constante na região. Além de todas as indagações científicas, a descoberta abre também a possibilidade futura para um “tour arqueológico” nos arredores. Segundo Astolfo, “Seria ótimo para a região, com certeza. Por que não? Na região de Analândia isso funciona muito bem!”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/07/2019 às 18h23 | daltonmaziero@uol.com.br

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.