Balneário Camboriú iniciou uma reorganização ampla na política educacional do ensino fundamental com foco direto na aprendizagem dos estudantes e, como consequência, na melhoria do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). A estratégia reúne ações pedagógicas, administrativas e estruturais que vão desde a formação de gestores escolares e aquisição de materiais até revisão curricular, avaliações diagnósticas e adesão a programas federais.
A iniciativa nasce a partir de um diagnóstico interno da rede municipal, que apontou fragilidades acumuladas ao longo dos anos e a necessidade de uma atuação integrada e contínua.
Atualmente, de acordo com o IDEB 2023, Balneário Camboriú possui nota 5,9 nos Anos Iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) e 5,0 nos Anos Finais (6º ao 9º ano). Santa Catarina registra 6,2 e 4,9; a região Sul, 6,0 e 5,1; e o Brasil, 6,0 e 5,0, respectivamente.
A diretora-geral da Secretaria de Educação, Kelli Dacol, explica que o Índice é importante, mas não pode ser tratado como o único objetivo.
“Em relação ao IDEB, são várias frentes que precisamos atuar. O foco da atual gestão não é somente o IDEB diretamente. Nós temos que pensar em melhorar a qualidade da educação, porque o IDEB é um índice que nos dá suporte. Ele impacta nos programas e nos recursos que vêm do governo federal. Mas nós temos que pensar em várias frentes para melhorar a educação no município, não só perseguir um índice”, diz.
Segundo ela, o cenário encontrado pela gestão evidenciou um período de estagnação pedagógica.
“O nosso IDEB vem atrás há muito tempo. Temos que fazer um trabalho amplo e estrutural. Houve um hiato, um período em que não se pensou mais em avançar nesse desenvolvimento educacional. E isso também acaba desmotivando as equipes”, aponta.
Infraestrutura, gestão e pedagógico: frentes simultâneas

A reorganização da educação municipal parte de diferentes eixos. Um deles é a infraestrutura escolar, que já conta com obras, ampliação de unidades e reserva de terrenos. Outro é o pedagógico, que passa a ser tratado como prioridade.
“Quando a atual gestão assumiu, identificamos fragilidades em todos os aspectos. A infraestrutura é uma delas, mas agora temos esse outro trabalho que envolve um olhar pedagógico de vários vieses, focado nos programas do governo federal e nas estratégias que o município precisa adotar”, afirma Kelli.
Esse conjunto inclui ações voltadas à gestão escolar, professores, estudantes e currículo.
Contrato para materiais e formação integra estratégia

Uma das principais medidas em andamento é a contratação de materiais pedagógicos e formação para equipes gestoras e docentes, considerada uma das bases da nova política educacional. O investimento inicial é de aproximadamente R$ 1,9 milhão, através de materiais da editora Aprender.
“Essa é uma das estratégias que estão sendo tomadas para este ano. Além dos programas que já estão sendo trabalhados, nós identificamos que a gestão escolar, diretor, administrador, supervisor e orientador, estavam muito distantes também do pedagógico. E eles são a ponte entre a Secretaria, os programas federais e o trabalho com professores e alunos”, explica Kelli.
Segundo ela, cada escola receberá materiais específicos e formação voltada ao fortalecimento da gestão pedagógica. “Não é só material para o aluno. É um material que vem para fortalecer e formar esses gestores, porque eles vão fazer o desenvolvimento e a articulação dentro da escola”, comenta.
Alfabetização e avaliações entram como prioridades
A estratégia inclui ações focadas nos primeiros anos do ensino fundamental e também nas turmas que serão avaliadas pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). “Selecionamos os principais gargalos. Primeiro e segundo ano, com foco na alfabetização na idade certa. E quarto e oitavo anos com avaliações, porque no ano seguinte esses alunos farão o Saeb”, detalha.
O objetivo é acompanhar o desempenho, preparar estudantes e orientar intervenções pedagógicas.
“O trabalho com gestores, com um olhar mais pedagógico, diretamente com os professores, é fundamental para que a aplicação do material tenha qualidade e para que a gente consiga perseguir esses objetivos com os programas”, acrescenta.
IDEB como consequência da aprendizagem

A diretora da Divisão de Desenvolvimento, Cleonice Wehmuth Monteiro Berejuk, reforça que o índice educacional deve ser visto como resultado de um processo pedagógico consistente.
“O IDEB é um índice que perseguimos, mas ele nada mais é do que o resultado de uma entrega bem feita. Nós precisamos ajudar os professores com ferramentas e metodologias para que o aluno realmente aprenda e desenvolva as habilidades de cada etapa do percurso formativo”, afirma.
Segundo ela, a escolha dos materiais pedagógicos foi baseada em experiências consolidadas.
“Nós tivemos contato com o professor Herbert Lima, que foi secretário de Educação de Sobral, e vimos que muito do que foi feito lá pode ser aplicado aqui no sentido de fortalecer o ensino-aprendizagem”, diz.
Revisão curricular e alinhamento à BNCC
Outro eixo central é a revisão da proposta curricular da rede municipal, que passa por adequação à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
“A nossa proposta curricular não atende plenamente à BNCC. E todas as avaliações de larga escala, como o IDEB, têm como pano de fundo a BNCC. Antigamente se trabalhava muito o conteúdo. Hoje o conteúdo é uma ferramenta para desenvolver habilidades. É isso que precisamos fortalecer”, explica Cleonice.
O processo já recebeu parecer favorável do Conselho Municipal de Educação e está em andamento.
Diagnóstico permanente da rede

O Departamento de Ensino Fundamental também passou a intensificar o diagnóstico da aprendizagem dos estudantes.
“Desde o ano passado estamos trabalhando com avaliações diagnósticas, simulados e acompanhamento das turmas para identificar as fragilidades. A cada ciclo de provas conseguimos direcionar melhor o trabalho dentro das escolas”, afirma a diretora Sirlei Soares.
Recomposição das aprendizagens vai além da recuperação
Uma das ações estruturantes é a recomposição das aprendizagens, que busca recuperar habilidades não desenvolvidas pelos estudantes, especialmente após o período da pandemia.
“É importante dizer que é diferente da recuperação. A recomposição acontece durante o período de aula. O professor trabalha com a turma todas as habilidades que ainda não foram desenvolvidas, principalmente leitura, escrita e matemática”, explica Sirlei.
O trabalho ocorre com base nas competências previstas na BNCC e nas avaliações diagnósticas.
Programas federais entram como base da estratégia
A reorganização educacional também envolve a adesão a programas federais, como: Compromisso Nacional da Criança Alfabetizada; Escola das Adolescências; Recomposição das Aprendizagens; e Toda Matemática.
“O fundamental II, que é do sexto ao nono ano, andava meio invisível. A adolescência é uma fase em que muitos alunos se distanciam da escola. O programa Escola das Adolescências vem justamente para olhar para essa etapa e aproximar o ensino da realidade dos estudantes”, afirma Cleonice.
Matemática é apontada como principal desafio
Avaliações preliminares indicam que o maior gargalo da rede municipal está na aprendizagem em matemática.
“Os diagnósticos mostram que a matemática é hoje o nosso principal desafio. Em leitura temos avanços, mas a matemática exige um trabalho mais intenso, incluindo na formação dos professores”, destaca Sirlei.
Evasão e participação também impactam resultados
Outro eixo de atuação é o combate à evasão e o incentivo à participação dos estudantes nas avaliações.
“O IDEB considera aprovação, reprovação e abandono. Fizemos um trabalho forte de acompanhamento da frequência e de incentivo para que os alunos participassem das avaliações. Isso também impacta o resultado”, explica Sirlei.
Resultados devem aparecer gradualmente
A expectativa da Secretaria é de melhora progressiva nos indicadores, com impacto maior nos próximos ciclos.
“O resultado que será divulgado agora ainda carrega dados de anos anteriores. A melhora mais significativa deve aparecer no IDEB de 2028, porque é fruto do trabalho que estamos estruturando agora”, afirma Cleonice.
Plantio agora, colheita nos próximos anos
Para Kelli Dacol, a decisão da gestão foi estruturar primeiro a base pedagógica antes de ampliar investimentos em grande escala.
“Poderíamos fazer grandes aquisições de materiais, mas isso poderia gerar acúmulo e pouca efetividade. Preferimos integrar programas, fortalecer a gestão escolar e estruturar a rede. Depois, a expansão vem com mais consistência”, informa.
Segundo ela, o investimento atual é apenas a primeira etapa de um plano contínuo.
“Estamos plantando agora para colher nos próximos anos. O foco é garantir que a aprendizagem aconteça de forma consistente e permanente. O índice é consequência desse processo”, completa Kelli.

