Profissionais do Departamento de Educação Especial e Paradesporto, junto ao setor de Nutrição da Secretaria de Educação de Balneário Camboriú, se reuniram na quinta-feira (7), com representantes da Associação de Pais e Amigos do Autista (AMA Litoral), para discutir novas estratégias para uma alimentação escolar adaptada e segura para alunos com seletividade ou outras dificuldades alimentares.
O encontro teve como foco a reorganização do protocolo voltado à alimentação inclusiva na rede municipal, especialmente para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A iniciativa integra o Projeto Cuidar, Incluir e Nutrir, que propõe estratégias individualizadas para atender cada criança de acordo com suas necessidades.

“Comer não é apenas uma questão nutricional — é também afeto, segurança e pertencimento”, resume a nutricionista responsável pelo projeto, Susana Lenes de Miranda Machado. “Ao adaptar a alimentação, a escola envia uma mensagem poderosa: ‘Você importa. Você faz parte’”, diz.
Um desafio presente em muitas famílias
Atualmente, a rede municipal atende cerca de 900 alunos com TEA. O Setor de Nutrição já acompanha formalmente 30 solicitações de adaptações alimentares, envolvendo situações como seletividade, recusa de alimentos, hipersensibilidade sensorial, alterações motoras e resistência a mudanças na apresentação dos pratos.
“Sem as adaptações necessárias, corremos riscos que vão desde prejuízos nutricionais até a exclusão da criança do convívio escolar no momento da refeição”, destaca Susana.
Como funciona o atendimento
O protocolo de atendimento é dividido em três etapas:
- Identificação e encaminhamento – A escola observa a rotina alimentar da criança e, ao identificar dificuldades, solicita laudo médico ou parecer técnico à família, além de preencher documentação enviada ao Setor de Nutrição.
- Elaboração de estratégias individualizadas – A nutricionista dialoga com a família e, quando possível, com profissionais que já acompanham a criança. Caso não haja acompanhamento, o AMA Itinerante pode ser acionado para atuar diretamente na escola.
- Implementação e acompanhamento – As adaptações são aplicadas pela escola e monitoradas pelo Setor de Nutrição, que ajusta as estratégias conforme a evolução da criança.
Nos casos mais graves, pode ser autorizada temporariamente a oferta de alimentos trazidos de casa, sempre mediante avaliação técnica e termo de responsabilidade assinado pela família.

Onde começa e base legal
A implantação do protocolo inicia pelos Núcleos de Educação Infantil (NEIs) e será expandida gradualmente para os Centros Educacionais Municipais (CEMs).
A ação está amparada pela Lei nº 12.982/2014, pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) e pela Resolução FNDE nº 06/2020.
“O nosso objetivo final é garantir uma alimentação segura, nutritiva e adaptada às necessidades de cada criança, promovendo inclusão, respeito e equidade no ambiente escolar”, reforça a nutricionista.
Comer não é tão simples quanto parece
Para muitas crianças, o momento da refeição é um desafio complexo.
“Envolve a coordenação de 26 músculos e seis nervos cranianos apenas para engolir, além da integração de todos os sentidos”, explica a nutricionista.
Entre as barreiras mais comuns estão desconfortos com texturas, cheiros e sabores, medo de experimentar alimentos novos, alergias, refluxo, disfagia, ou preferências rígidas por determinadas marcas e formas de apresentação.
“O ambiente escolar também influencia muito. Barulho, luz intensa e cheiros misturados podem sobrecarregar a criança e fazê-la entrar em estado de alerta, deixando de priorizar a alimentação”, acrescenta.
Impactos das dificuldades alimentares
- Nutricionais – Dietas restritas ou monótonas, risco de deficiências nutricionais.
- Sociais – Ansiedade e exclusão em eventos ou refeições coletivas.
- No desenvolvimento – Prejuízos no crescimento, no comportamento e na aprendizagem.
Estratégias para ampliar o repertório alimentar
O processo de aceitação de novos alimentos costuma ser gradual. Segundo a metodologia da psicóloga pediátrica Kay A. Toomey, as etapas passam por tolerar o alimento, interagir, cheirar, tocar, provar e, por fim, comer.
“Não forçamos. Criamos oportunidades para que a criança avance no seu tempo, com apoio e acolhimento”, explica Susana.
Casos acompanhados na rede municipal
Dos casos atualmente monitorados:
- 52% aceitam algum alimento da escola – Exemplo: arroz e feijão servidos diariamente, mesmo fora do cardápio geral, e preparados conforme a textura preferida.
- 38% levam alimentos de casa – Geralmente por rigidez comportamental. Em um caso, uma criança de 4 anos se alimentava apenas de leite materno, salgadinhos, batatas chips e bolachas simples de marcas específicas. O trabalho começou autorizando a bolacha trazida de casa, para depois introduzir utensílios da escola e promover aproximação com outros alimentos.
- 10% não se alimentam na escola – Casos que exigem atuação intensa e integrada com profissionais de saúde e família.
Um exemplo de sucesso: Davi, 6 anos
Davi não comia nada na escola. A partir do diálogo com a família e da observação atenta, identificou-se a preferência por alimentos secos e crocantes.
“Adaptamos o cardápio para incluir pão de queijo a cada dois dias, frango assado como proteína e autorizamos o envio de torradas de casa. com o tempo, ele passou a comer frango assado e pão de queijo na escola e já consegue tocar nas frutas, o que antes não acontecia”, conta Susana.
O avanço foi possível graças à paciência, ao cuidado e à parceria entre escola, família e profissionais.
Próximos passos
Agora após a volta das aulas, o Informe Técnico de Adaptações Alimentares será enviado a todas as unidades, orientando o passo a passo para o atendimento adequado de crianças com TEA, deficiências ou outras condições que impactem a alimentação.
“Queremos que a alimentação escolar seja, para todas as crianças, um momento de acolhimento e não de exclusão. Incluir na alimentação é incluir na escola”, conclui Susana.

