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Balneário Camboriú

80% do lixo encontrado no mar vem da terra, apontam especialistas

Balneário Camboriú foi contemplada com o selo ‘Município Lixo Fora D’Água’, mas ainda há muito a ser feito

Balneário Camboriú recebeu esta semana o selo internacional ‘Município Lixo Fora D’Água’, através da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), representante nacional da International Solid Waste Association (ISWA). Apesar da certificação ainda há muito a fazer.

A situação em nível nacional e mundial é ainda mais preocupante: segundo a National Geographic, está previsto que a quantidade de lixo plástico despejada nos oceanos todos os anos quase triplicará até 2040, chegando a 29 milhões de toneladas métricas. 

A pesquisa da NatGeo indica que não é possível saber ao certo a quantidade de plástico que já foi depositada nos mares – porém, uma estimativa é de 150 milhões de toneladas métricas. Considerando isso e, supondo que nenhuma mudança seja implementada, o estudo estima que o acúmulo chegará a 600 milhões de toneladas métricas em 2040. 

Lixo do oceano ‘vaza’ da terra

Presidente da Abrelpe em BC (Renata Rutes)

O presidente da ABRELPE, Carlos Silva Filho, que veio a Balneário Camboriú para entregar o selo ‘Município Lixo Fora D’Água’ ao prefeito Fabrício Oliveira, citou que o selo foi criado após constatação da ISWA, a qual a ABRELPE representa no Brasil, sobre a necessidade de mudança de cultura.

“80% de todo o material [lixo] encontrado no oceano ‘vaza’ da terra para o mar. Só vamos resolver esse problema se trabalharmos na origem dele. Por isso, criamos o selo Lixo Fora D’Água, para incentivar que as cidades trabalhem direto na fonte, como Balneário Camboriú, que desenvolve ações como o ReciclaBC e tem uma coleta e limpeza urbana que são referências. Inclusive a Ambiental é associada da Abrelpe. Foi por esse trabalho que a cidade obteve a primeira certificação do Brasil deste selo”, contou. 

Segundo Carlos, o projeto Lixo Fora D’Água começou, no Brasil, em Santos, ainda em 2018, ocasião em que abriram o chamamento para que outras cidades participassem e Balneário se inscreveu. 

“Temos 11 municípios brasileiros nessa seleta lista, com Balneário como referência e inspiração. Há cidades com o selo no Caribe, Indonésia, Ásia, América Central, etc. Vejo que a tão falada retomada do turismo precisa ser verde e sustentável”, afirmou.  


“Não deixa de ter lixo, está só ‘escondido’”

diz presidente do Instituto Lixo Zero Brasil 

Rodrigo Sabatini (Divulgação/ILZBrasil)

O presidente do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB), Rodrigo Sabatini, destaca que o plástico é um problema em todo o mar. Ele vê que Santa Catarina tem uma ‘vantagem’: a modernidade da limpeza urbana, como no caso de Balneário, que foi premiada com o selo Município Lixo Fora D’Água. 

“Mas não há garantia de que a praia não está recebendo lixo. A cidade não parou de gerar, o lixo está indo para o aterro. Basicamente, quer dizer que a nossa babá limpa muito bem a nossa bunda, mas não deixa de ter lixo, está só ‘escondido’. O ILZB se preocupa com a mudança de comportamento das pessoas, queremos mudar a cultura do descartar para o cuidar, para que deixemos de ter apenas uma ‘babá cuidando’ e sim instrumentos para fazer a coisa certa”, explica. 

Sabatini vê que o selo ‘não diz muito’ e que o foco de Balneário deveria ser uma busca maior para atingir a meta Lixo Zero. 

“A prova que falta consciência está no Ano Novo, com a sujeira que fica na praia. O movimento Lixo Zero não é apenas uma campanha ambiental, para que isso se torne realidade é preciso engenharia, envolve diagnóstico, planejamento e, é claro, a educação ambiental também precisa estar presente”, diz. 


“Estamos na década dos oceanos e as previsões sobre lixo no mar são alarmantes!” 

Brinquedos coletados pela mãe da Lívia na praia central de Balneário, antes do caminhão da coleta passar em uma manhã de verão. Ela chegou a coletar mais de 100 brinquedos em uma só manhã. Esses brinquedos, se não coletados, são arrastados para o mar. (Divulgação)

A Embaixadora da Semana Lixo Zero em Balneário Camboriú, Lívia Garcia Prado, está fazendo Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental na Univali, com a tese na área de lixo do mar. Ela aponta que é complicado garantir que Balneário não tem lixo no mar, já que realmente 80% do lixo marinho tem origem terrestre. 

“Em Balneário, o lixo chega até o mar por meio da chuva, dos rios, do mangue. O lixo da praia é carregado. E nós sabemos que ainda é um problema grande no município. 

Muito lixo recolhido no Pontal Norte (Divulgação)
A coleta do Pontal Norte (Divulgação)

“No Pontal Norte, em uma hora e meia de coleta, tiramos 1.040 bitucas de cigarro, 99 latinhas, 126 garrafas pet, 467 embalagens de camisinha e 267 tampinhas de garrafa. Se em uma hora e meia de coleta na praia recolhemos tudo isso, qual a sua opinião sobre não ter lixo no mar?”, questiona. 

Assim como Sabatini, Lívia vê que o que acontece é que realmente há uma limpeza da praia, o que traz uma ‘falsa impressão’ de que não há presença de lixo. 

“Mas nós sabemos que há, sim. Além dos resíduos maiores, temos também o microplástico, que é uma grande preocupação! No meu Doutorado vou trabalhar com tipificação e quantificação do lixo marinho, para avaliar quais são os resíduos mais presentes e qual a quantidade de cada resíduo, seja ele plástico, vidro, metal e etc. Eu vou analisar o calçadão, o solarium, a zona ativa e o mar. Estamos na década dos oceanos e as previsões sobre lixo no mar são alarmantes! Como pesquisadora, pretendo demonstrar de forma científica como estamos impactando o oceano. Como ativista, trabalho para conscientizar as pessoas com intuito de prevenir os danos causados pelo descarte incorreto e também pelos hábitos de consumo”, conta. 

Lívia estará à frente da Semana Lixo Zero de Balneário Camboriú, que deve acontecer entre 22 e 31 de outubro, com eventos presenciais e online. 

“Pretendo unir a temática do lixo zero com a década dos oceanos e também com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU). O lixo no mar tem origem antrópica e é preciso conscientizar as pessoas sobre como evitar o impacto dos ecossistemas marinhos. É preciso também trabalhar educação ambiental de forma que a população entenda que um oceano poluído afeta a vida marinha, a vida terrestre, os ciclos de chuva, o aquecimento global e muito mais. Por isso a semana lixo zero de 2021 enfatizará a importância do ambiente marinho para o equilíbrio da natureza”, completa.


Bióloga estuda ambiente marinho da região e impacto da pesca de arrasto 

O cenário ideal (Luiz Gustavo da Silva Cornélio)
(Luiz Gustavo da Silva Cornélio)

A bióloga Vivian Cionek, que atua como Pós-Doc no Programa de Pós graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Univali, estuda o ambiente marinho de boa parte do litoral catarinense. Ela destaca que possuímos uma diversidade aquática imensa em nosso litoral, com cerca de 150 espécies aquáticas já registradas, incluindo peixes, moluscos, crustáceos e equinodermos.

Essas espécies sofrem com os impactos da pesca de arrasto do camarão, uma vez que estimativas demonstram que mais de 100 delas tendem a ser devolvidas ao mar sem vida. Vivian aponta que o que preocupa não é só o impacto da pesca sobre a remoção das espécies, mas também o fato de que as redes de pesca acabam se enroscando ou sendo perdidas no mar, contribuindo para o acúmulo destes resíduos no mar.

Vivian também integra o movimento Lixo Zero de Balneário Camboriú – ela vê que o selo conquistado pela cidade precisa ser ‘merecido’. 

“Mesmo que o município faça tudo muito bem, de recolher os resíduos nas áreas centrais, eles não dão conta de limpar todas as regiões onde as pessoas acessam. O grande problema é no hábito das pessoas, que jogam lixo no lugar errado, aí não tem poder público que resolva. A única solução para salvar o mundo é a educação”, analisa. 

Acúmulo de resíduos sólidos nas trilhas e costões das praias agrestes (Luiz Gustavo da Silva Cornélio)
(Luiz Gustavo da Silva Cornélio)

Vivian é mergulhadora e já viu muito lixo nos costões da Praia de Taquaras, como plástico, microplástico e redes de pesca. “Acaba sendo perigoso também para os mamíferos marinhos que vieram para o nosso litoral neste ano, como as baleias. Há também a problemática da questão de esgoto, Balneário pode estar bem avançada na questão do saneamento, mas Camboriú não, e tudo se conecta, inclusive a questão dos briozoários [uma pesquisa feita pela Univali aponta que o fenômeno dificilmente deixará de acontecer, tendo uma possível ligação com o esgoto, o grande ‘alimentador’ de material orgânico para esses organismos – saiba mais aqui, completa.

Para saber mais sobre o estudo de Vivian e outras linhas de pesquisa com base no litoral catarinense, basta acessar aqui.


Eco Garopaba:
Prancha Ecológica é referência nacional 

Projeto de Jairo e Carol já alcançou outros países (Divulgação/EcoGaropaba)

Em 2007 quando o surfista brasileiro Jairo Lumertz morava na Ilha de Oahu, no Hawaii, incomodado com a questão do lixo nos oceanos, resolveu criar uma prancha feita de material reciclado para chamar atenção sobre a necessidade de preservação dos oceanos e das praias. Nascia então o primeiro modelo de prancha de surf utilizando garrafas pets recicladas. A prancha foi muito bem aceita pela comunidade local do North Shore da Ilha de Oahu e Jairo percebeu que estava no caminho certo. 

De volta ao Brasil, em 2011, ele conheceu Carol, atualmente sua esposa, e contou a ela sobre a prancha que havia inventado. Logo estavam juntando garrafas pelas ruas para a primeira versão da prancha no Brasil. 

O surfe e a vontade de cuidar do meio ambiente uniu o casal em se engajar em ações ligadas ao meio ambiente, sustentabilidade, inclusão social e ao esporte. 

Em 2012 percorreram o litoral sul e sudeste do Brasil levando a “Prancha Ecológica” – como foi batizada a prancha de surf feita com garrafas pets retiradas da natureza. A prancha ajudava o Jairo e a Carol levar mensagens de preservação, educação ambiental, reciclagem e ao mesmo tempo permitindo o acesso ao esporte. 

A Eco Garopaba, associação sem fins lucrativos, foi fundada em 2013, engajada em assuntos ligados à preservação do meio ambiente, ao esporte e inclusão social. 

De lá para cá, Jairo e Carol percorreram 14 estados do Brasil, conversaram com milhares de crianças e adolescentes e fizeram centenas de palestras e oficinas, bem como realizaram apresentações junto a eventos ligados ao esporte e ao meio ambiente, adaptaram a Prancha Ecológica para deficientes físicos e fizeram inúmeras limpezas de praias e oceanos. 

O projeto já foi levado para outros países, como Austrália, Inglaterra e Peru. Para saber mais, siga @ecogaropaba no Instagram.]

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“Nós somos o duna.lab”

O duna.lab é um laboratório de design sustentável que existe para engajar pessoas e empresas na mudança por um mundo mais sustentável, com foco na conscientização e combate à poluição plástica.

Os produtos são fabricados com plástico 100% reciclado e plástico 100% reciclável, mostrando que é possível desenhar um novo amanhã com menos plástico na natureza e nos oceanos.

A designer e empreendedora responsável pelo duna.lab é Patrícia Deporte, de Florianópolis.

(foto Mario Kabilio)

design + consciência + transformação

“O design tem um papel fundamental no combate à poluição plástica, por isso transformamos resíduos plásticos em produtos criativos que carregam alma, beleza e um propósito: gerar consciência e transformação por meio do design!

Como funciona o processo de fabricação dos produtos?

Coleta: temos parceria com cooperativas de materiais recicláveis e com empresas parceiras – além de vizinhos e amigos que conhecem nosso trabalho e adoram coletar material para nós também.

Separação: depois de coletado, separamos os resíduos por tipo de plástico e também por cores. Vocês já viram que os produtos do duna tem cores lindas. A gente dá muito valor pra essa parte do processo por aqui.

Trituração: depois de separados por cor e por tipo, nós trituramos os resíduos plásticos para termos os “flakes” – como é chamado o pequeno grão de plástico triturado.

Limpeza: depois de triturado, o plástico passa para o processo de limpeza de resíduos do processo.

Molde: depois de higienizado, o produto ganha nova forma dependendo do molde do produto.

Embalagem e acabamento final: depois de tudo, o produto ganha seus acabamentos finais (corte, lixa, furos).

Chaveiros, luminárias, colares, imãs, quadros, vasos e brincos (Divulgação/Mario Kabilio)

Em Balneário Camboriú

Os produtos do duna.lab estão no Oceanic Aquarium.

(foto Tiago Gomes)

Algumas das ações que o duna participou este ano:

  • Projeto Ilhéus – Ação de limpeza da Ilha do Largo
  • Ecosurf + Natura: Ação de limpeza da Ilha do Campeche

Conheça mais sobre o duna no @duna.lab

Texto: Renata Rutes

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